(…)Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração… É preciso ritos.

- Que é um rito? Perguntou o Principezinho

- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!(…)

(Saint-Exupéry, Antoine)

A primeira ideia que formamos ao pensarmos em ritos, normalmente está relacionada à noção de que um ritual é algo formal e arcaico, quase que desprovido de conteúdo, algo feito para celebrar momentos especiais e nada mais, ou que estão ligados apenas à esfera religiosa, a um culto ou a uma missa. Mas os ritos estão presentes em nossa vida cotidiana.
Podemos pensar então, nos ritos de passagem como cerimônias que assinalam transições importantes no desenvolvimento do indivíduo e em que ocorre uma mudança no estatuto social, como por exemplo: os ritos ligados ao casamento e ao nascimento.
Os ritos marcam transições definitivas e definidoras de escolhas que marcam os rumos a serem tomados na vida, sendo parte da construção e da afirmação da identidade humana frente ao que o mundo nos apresenta. Simbolizam assim, a aceitação por parte do indivíduo das crenças, costumes e normas comunitárias: ao submeter-se às provas ele dá o seu assentimento à tradição. Simbolizam, portanto, o reconhecimento social do indivíduo e a sua integração no grupo.
Nos dias de hoje, ou seja, nas sociedades modernas e industrializadas mesmo ritos de passagem continuando a existir, estes foram perdendo o seu significado primário, passando a representar meramente um evento social, como por exemplo, as ostentações nas festas de casamento em que se é deixado de lado o essencial da união de duas pessoas e famílias; ou nas gestações show, onde a maior preocupação é a preparação do enxoval fora do país, a decoração perfeita do quartinho e o book da gestação com superprodução, sendo deixado de lado toda a preparação psicológica para as mudanças que estão por vim.
Esta banalização dos ritos de passagem não deveria ocorrer… e como disse a raposa, o rito é uma coisa muito esquecida, mas “é o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas”.