Quando a maternidade não vem

Postado em 10 jun, 2015 - Psicologia

[denoivaparamae]_post_04Chega o momento que o casal deseja ter filhos, momento este muitas vezes esperado e idealizado. Mas quando este momento não se realiza da forma esperada?

E quando o período estabelecido pelos médicos de 6 a 12 meses a gravidez não acontece? E quando começa a se pensar em algum “problema”? Como lidar com todos estes sentimentos, angustias e preocupações ao mesmo tempo?

Ao se desejar ter filhos nenhum casal cogita a possibilidade de se deparar com a algum tipo de dificuldade reprodutiva. E esta situação inesperada causa medo, ansiedade, tristeza e frustração. E neste ponto o casal se questiona porque para alguns a gestação acontece naturalmente e para outros é tão difícil.

De acordo com a  Organização Mundial da Saúde (OMS) a infertilidade é definida como: “a incapacidade de um casal para alcançar a concepção ou levar uma concepção a termo após um ano ou mais de relações sexuais regulares, sem proteção contraceptiva”. Desta forma, a infertilidade é a diminuição da capacidade de ter filhos devida a alterações nos sistemas reprodutores masculino e/ou feminino.  E neste ponto é importante diferenciar a infertilidade da esterilidade. Só dizemos que um casal é estéril (esterilidade) quando a capacidade natural de gerar filhos é nula.

No entanto, para os casais que vivenciam esse problema, a infertilidade está além desta definição, é mais do que isso. Não conseguir gerar um filho com a pessoa amada e não conseguir dar continuidade à família sendo frustrante e desmotivante.

Mas antes de falar dos aspectos emocionais relacionados à infertilidade vamos primeiro a alguns números. No Brasil, estima-se que aproximadamente dois milhões de casais venham a apresentar algum tipo de dificuldade ao longo de suas vidas reprodutivas. A infertilidade afeta cerca de um a dez casais em idade fértil, destes:

  • 30 a 40% dos casos são devido à infertilidade do homem e da mulher, simultaneamente;
  • 20% dos casos a causa de infertilidade está no homem;
  • 30 a 40% dos casos a causa de infertilidade está na mulher;
  • 10% dos casos têm infertilidade sem causa aparente.

A infertilidade é uma doença que atinge o casal simultaneamente e de várias formas e afetando diversos aspectos da vida das pessoas como a autoestima, a capacidade de planejar o futuro, o relacionamento conjugal, além desencadear profundos sentimentos de culpa, frustração e nervosismo.

O projeto parental quando não se concretizar significa um rompimento dos afetos colocados nos filhos desejados. A perda da fertilidade, e de uma criança que ainda não foi concebida, não é um evento socialmente reconhecido. Não existem rituais que legitimem a dor de um casal infértil pela criança que ainda não foi concebida, transformando-se a infertilidade em um luto silencioso e solitário. Como esse momento de infertilidade não é previsto, a não ser em situações especiais, a maioria dos casais não estão preparados para enfrentar esse diagnóstico, mesmo que este seja transitório.

Aliado à isto, a maioria dos casais inférteis já se deparou com a afirmação de amigos ou parentes, bem intencionados, mas mal informados que dizem “Relaxe que você engravida.”  ou “Todo o problema está em sua cabeça”.  Mas, na grande maioria dos casos de infertilidade existe um fator orgânico, justificando os problemas do casal para engravidar. E é muito importante investigar este fator.

E este início do processo de investigação para os problemas da fertilidade desencadeia uma série de angústias, emoções no casal. Até a decisão de buscar um especialista da área da Medicina Reprodutiva pode ser algo penoso e que envolve, em certa medida, um reconhecimento das próprias limitações.  As reações emocionais mais evidenciadas por casais inférteis diante do problema são: ansiedades com relação a suas capacidades reprodutivas, abalo da consciência da feminilidade ou masculinidade, frustração, solidão, medo e tristeza.

E como já dissemos acima, existem emoções mais contidas como a raiva e a culpa, que quase sempre se encontram presentes neste momento apesar de na maioria estarem contidas ou não conscientizadas. Esta fragilidade emocional pode abalar a auto-estima e provocar uma situação pessoal e conjugal até então nunca vivenciada, sendo necessária uma adaptação emocional, social e familiar. Todo esse turbilhão de sentimentos provocados pelo diagnóstico e tratamento pode ter claras consequências no relacionamento conjugal, abalo do desejo de um pelo outro, diminuição do prazer de estarem juntos, do contato físico. Pesquisas apontam que cerca de 60% dos casais em investigação para a Infertilidade apresentam alterações na freqüência e no desejo sexual. O sexo passa a se tornar uma obrigação, tendo de ser praticado nos dias e horários adequados e a vida do casal passa por uma significativa alteração.

Reconhecer o caráter aflitivo que o diagnóstico da infertilidade e do seu tratamento traz a um casal é importante para que o cuidado com o fator emocional no tratamento é indispensável para que o vínculo amoroso do casal seja fortalecido e para que o acolhimento afetivo ao filho tão desejado seja o mais tranqüilo e natural possível.

Neste processo o casal passa por um período de reavaliação e reorganização do seu projeto de vida, em função desta incapacidade de serem pais. Geralmente, desencadeia-se uma situação de crise em que muitos casais têm dificuldades para desenvolver mecanismos adequados para lidar com uma perda, temporária ou permanente, da possibilidade de ter um filho biológico.

E como é possível lidar com esta situação da melhor forma possível?

  • Admita que a dificuldade de gravidez é uma crise na sua vida: a dificuldade para engravidar pode representar uma das fases mais difíceis da sua vida, não é frescura, muito menos um capricho. E sim, é um motivo justo para ficar triste. É importante também que o casal reconheça que o problema é sério.
  • Não se culpe pelo problema: Evite os pensamentos do tipo eu devia ou podia ter feito algo diferente antes. Como por exemplo “Eu não devia ter esperado tanto”; “Eu não devia ter tomado pílula por tanto tempo” ou “Por que não me cuidei melhor?”. Quando começar a ter esses tipos de pensamentos lembre-se de que problemas de fertilidade acontecem, não são culpa sua.
  • Trabalhe em equipe: Você e o seu parceiro precisam se unir neste momento. Evite a armadilha de culpar o outro pela dificuldade de engravidar. Procurem cuidar um do outro, prestar atenção ao que o outro sente é importante para que o respeito e companheirismo permaneçam neste momento.
  • Aprenda tudo o que puder sobre o problema: a informação é a melhor maneira de lidar com o problema. Leia sobre problemas de fertilidade e faça todas as perguntas que quiser ao médico, sem medo ou vergonha.
  • Estabeleça um limite de até onde tentar: alguns casais decidem que não vão apelar para tratamentos muito complexos na tentativa de ter um bebê. Outros resolvem fazer todo o possível, não importa quanto tempo demore ou quanto custe, para realizar o sonho. Comecem pensando no que vocês não estão disposto de forma nenhuma a tentar.
  • Pense em quanto vocês estão dispostos a gastar: os tratamentos de fertilidade são caros, e não existe a garantia de sucesso. Por isso quanto gastar nos tratamentos é um ponto importante para ser discutido pelo casal.
  • Busque apoio de profissionais e de pessoas que passaram ou estão passando pelo mesmo problema: uma boa rede de apoio social é imprescindível para superar este momento. A sociedade não se dá conta do tamanho da tristeza que a infertilidade provoca. A reação mais comum dos casais que passam por problemas de infertilidade é esconder a tristeza, o que acaba aumentando a sensação de isolamento e por vezes de vergonha.
  • Dê-se o direito de evitar atividades que envolvam bebês: respeite os seus limites. Se certas situações são difíceis para você, como ir ao chá de bebê da colega que engravidou sem querer, sinta-se no direito de não ir.
  • Procure equilibrar otimismo e realidade: é preciso sim ser otimista, mas também é importante ser cauteloso para não se iludir com as reais possibilidades. Pergunte ao médico, em porcentagem, quais são as chances de sucesso, para procurar ter em mente que pode dar certo, mas pode não dar.
  • Cuide-se e procure ter outros interesses: passar por um tratamento de fertilidade  exige tempo e dedicação, além de ocupar muito de sua energia e pensamentos.  Por isso é importante encontrar espaço para alguma outra atividade ou hobby que proporcione prazer. A busca por uma expansão de interesses trará um sentimento de eficiência e de auto-valorização enquanto a gravidez não vem.

Por fim é importante dizer que para o enfrentamento da infertilidade conjugal não existem receitas prontas!  Cada casal, cada pessoa irá encontrar a melhor forma de fazê-lo.