Sobre nossa absoluta falta de civilidade

Postado em 22 mai, 2013 - Dicas Gestantes, Dicas Mamães, Dicas Noivas
Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna

Texto de Suzane Frutuoso publicado em Fale ao mundo

No último domingo levei um tremendo susto em casa. Depois de um jogo de futebol, um morador entrou no estacionamento do meu condomínio em alta velocidade, gritando o nome do time dele. Pra saber o que, afinal, estava acontecendo, saí na janela do meu apartamento, assim como outros moradores do prédio. Não bastasse o sujeito estar aos berros, xingando as pessoas porque elas foram observar a baderna, ele ainda soltou rojão dali mesmo! Consegui fechar rápido minha janela antes de ter um rojão estourando no meu rosto. Mas a vizinha de cima teve a janela atingida. Pra piorar, o cara ainda bateu boca com ela na portaria, se achando cheio de razão.

Não me interessa no momento discutir pra que time o rapaz torce ou não. O que interessa é perceber que a atitude fanática e violenta dele, numa área comum do prédio, simboliza um problema bem maior que a sociedade enfrenta: nossa absoluta falta de civilidade, especialmente em espaços comuns e públicos. O brasileiro que reside em condomínio (um jeito de morar cada vez mais predominante em cidades em processo de verticalização) não tem a mínima ideia do que é viver em coletividade. Do alto de sua arrogância e de seu ego mal resolvido, ele acredita que o estacionamento, o playground, o salão de festas, a churrasqueira, entre outros espaços de um prédio, é só o quintal de uma casa. Principalmente se é proprietário (ah, o tal poder de consumo chegando antes da educação… ). Não é. Óbvio, que é um direito dele usar esses ambientes. Mas ele não pode utilizá-los do ponto de vista individual, não! Se vive em condomínio existem regras a serem obedecidas para o bem comum.

Levei o debate para uma das aulas que frequento no mestrado. Minha professora e alguns colegas consideraram que a atitude do morador do meu prédio era um reflexo de uma modernidade em que a sociabilidade entre as pessoas perdeu importância. A consciência coletiva é atropelada pelo individualismo, mais ainda nas metrópoles. Culpa do cotidiano estressante e rápido demais. E para relaxar da pressão do mundo, para se sentir um pouco dono de si mesmo, o indivíduo quer provar sua liberdade custe o que custar. Nem que pra isso ele tenha que passar por cima dos direitos alheios, achando que só o dele é válido e que pode fazer o que bem entender.

Lembramos na conversa também da quantidade de incidentes e crimes que aconteceram na Virada Cultural deste ano, no último fim de semana, aqui em São Paulo. Um evento que deveria ser uma celebração da arte e da cultura, com acesso irrestrito em áreas públicas da cidade – um bem de todos –, ganhou ares de insegurança pela incapacidade da polícia e do governo em manterem um esquema que funcione. Não só por culpa das instituições. Mas porque uma parcela da população acredita que está acima do bem e do mal. Existem os criminosos, que é um problema social mais complexo, infiltrados no meio da multidão. Existem aqueles que não roubam, não matam, não fazem arrastão – mas que arrebentam por diversão bancos de praça, jardins, picham muros. Não colocam, é verdade, a vida de ninguém em perigo. Mas criam uma atmosfera de risco que intimida alguém a desejar estar naquele lugar.

Eu não discordo do contexto modernidade-sociabilidade-individualismo. Acredito que explica muita coisa, sim. Mas o problema do brasileiro vai além. Falamos tanto da falta de investimento em educação. Nossas “melhores” escolas, porém, quando pensam em educação de qualidade focam em competição. O ensino é voltado pra passar no vestibular, pra transformar uma criança em um futuro vencedor – e me espanta como as pessoas ainda não se deram conta de que a ideia de “vencer” é bem relativa. Outro dia uma moça me contou que ficou chocada na reunião de pais na escolinha da filha de 2 anos quando um impaciente pai perguntou, afinal, quando os pequenos alunos começariam as aulas de inglês e (pasme!) mandarim. Estamos falando de bebês ainda de fraldas, ok?

Pais e educadores são incapazes de enxergar que uma educação eficiente é a que ensina respeito ao próximo, ao patrimônio público, a ter caráter e que direitos e deveres devem ser pensados levando em consideração um efeito coletivo maior. Significa que devemos assistir ainda muita gente tendo ataques de “sabe com quem você está falando” ou “se tá na rua é pra quebrar mesmo”. Pra piorar o resultado de nosso ensino ineficiente, a aplicação das nossas leis continua sendo piada.

Uma amiga me contou que um executivo estrangeiro passou uns dias na empresa na qual ela trabalha. Começaram a conversar sobre a justiça brasileira e a Lei Seca, que pune motoristas que dirigem após beber. Ela disse que agora essa lei estava “pegando”, funcionando, finalmente. O gringo não entendeu nada. “Como assim? Se é lei não tinha que funcionar na hora que foi criada? Lei tem período de adaptação no Brasil?” Pois é, meu caro… No Brasil, não só parece que lei tem “período de adaptação”, como em alguns casos pode nunca funcionar de fato. Inclusive, porque muito brasileiro ainda acha bonito se gabar de que conseguiu burlar as regras, especialmente as que afetam o bem comum. Meu vizinho abusado, no fim, é só reflexo dessa mistura bombástica de educação mal direcionada e caráter coletivo corrompido. E como são poucos os que percebem o quanto isso é grave. Que a tendência é piorar.