Os transtornos alimentares em situações de vulnerabilidade emocional na preparação do casamento.

Postado em 4 jun, 2013 - Dicas Noivas, Psicologia
Fonte: Google Imagens

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Em posts anteriores foram reproduzidas reportagens da Folha sobre os kit noiva que inclui marmita light e tratamento corporal, além das noivas que fazem de tudo para entrar no vestido, inclusive a ‘dieta da sonda.

Mas será que todos estes procedimentos e preocupações em excesso podem ser consideradas saudáveis?

A busca por um corpo perfeito é a meta de muitas mulheres e das noivas que querem no seu dia especial entrar no vestido dos sonhos. Algumas dietas da moda viram grandes epidemias e é cada vez maior o ingresso de pessoas em academias para perda ou manutenção do peso. Os transtornos alimentares são hoje um sinal de alerta que aflige a sociedade moderna e que vem preocupando os profissionais da saúde e familiares envolvidos.

Para conquistar uma silhueta de dar inveja aos convidados no dia do casamento, algumas noivas recorrem a fórmulas milagrosas para emagrecer em poucos dias. Muitas dessas dietas são encontradas facilmente na internet, basta um click para ver frases como ‘perca 5 quilos em 3 dias sem passar fome’, ou ‘emagreça dormindo’. As dietas-relâmpago prometem corpos esculturais a partir de métodos nada convencionais para perder peso.

Em países desenvolvidos, 93% das mulheres e 82 % dos homens estão preocupados com sua aparência e buscam melhorá-la continuamente. De um modo geral, desejar ter uma imagem corporal perfeita não implica sofrer de algum transtorno, porém as possibilidades aumentam quando esta busca vira obsessão. Para Schilder (1994), a imagem corporal é a figura de nosso próprio corpo que formamos em nossa mente, ou seja, o modo pelo qual o corpo se nos apresenta.

O conceito de imagem corporal envolve três componentes (Thompson, 1996):

  • Perceptivo, que se relaciona com a precisão da percepção da própria aparência física, envolvendo uma estimativa do tamanho corporal e do peso;
  • Subjetivo, que envolve aspectos como satisfação com a aparência, o nível de preocupação e ansiedade a ela associada;
  • Comportamental, que focaliza as situações evitadas pelo indivíduo por experimentar desconforto associado à aparência corporal.

As crenças culturais determinam normas sociais na relação com o corpo humano. Práticas de embelezamento, manipulação e mutilação, fazem do corpo um terreno de significados simbólicos. Mudanças artificiais em seu formato do corpo, tamanho e aparência são comuns em todas as sociedades e têm uma importante função social. Elas comunicam a informação sobre a posição social do indivíduo e, muitas vezes, demonstram um sinal de mudança em seu status social. Todos estes comportamentos podem ser vistos de forma mais acentuadas em algumas noivas.

Fonte: Google Imagens

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Existem evidências que dão suporte de que a mídia promove distúrbios da imagem corporal e alimentar. Análises têm estabelecido que modelos, atrizes e outros ícones femininos vêm se tornando mais magras ao longo das décadas. Indivíduos com transtornos alimentares sentem-se pressionados em demasia pela mídia para serem magros e reportam terem aprendido técnicas não-saudáveis de controle de peso (indução de vômitos, exercícios físicos rigorosos, dietas drásticas) através desse veículo.

Os transtornos alimentares normalmente surgem em situações de maior vulnerabilidade emocional, ou seja, nos momentos de crise ou transição. Por esse motivo, na adolescência, no começo de casamento ou a chegada do primeiro filho, podem desencadear problemas de saúde como bulimia nervosa, anorexia nervosa e compulsão alimentar.

Os transtornos alimentares são caracterizados por alterações do comportamento em relação aos alimentos e à alimentação. Os transtornos alimentares (TA) têm uma etiologia multifatorial, ou seja, são determinados por uma diversidade de fatores que interagem entre si de modo complexo, para produzir e, muitas vezes, perpetuar a doença. Classicamente, distinguem-se os fatores predisponentes, precipitantes e os mantenedores dos TA.

Os fatores predisponentes são aqueles que aumentam a chance de aparecimento do TA, mas não o tornam inevitável. Os fatores que precipitam a doença marcam o aparecimento dos sintomas dos TA. Finalmente, os fatores mantenedores determinam se o transtorno vai ser perpetuado ou não.

Fatores predisponentes.

Individuais
 
 
 
Traços de Personalidade
 
 
 
Baixa auto-estima
 
 
Traços obsessivos e perfeccionistas (AN)
 
 
Impulsividade e instabilidade afetiva (BN)
 
História de Transtornos Psiquiátricos
 
 
 
Depressão
 
 
Transtornos da ansiedade (AN)
 
 
Dependência de substâncias (BN)
 
Tendência à Obesidade
 
 
Alterações da Neurotransmissão
 
 
 
Vias noradrenérgicas
 
 
Vias serotoninérgicas
 
Eventos Adversos
 
 
 
Abuso sexual
Familiares
 
 
 
Agregação Familiar
 
 
Hereditariedade
 
 
Padrões de Interação Familiar
 
 
 
Rigidez, intrusividade e evitação de conflitos (AN)
 
 
Desorganização e falta de cuidados (BN)
Sócio-Culturais
 
 
 
Ideal Cultural de Magreza

Fatores mantenedores:

Fisiológicos
 
 
Privação alimentar favorece episódios de compulsão alimentar
 
Episódios de compulsão alimentar interferem no metabolismo da glicose e insulina
Psicológicos
 
 
Privação alimentar desencadeia pensamentos obsessivos sobre comida e maior necessidade de controle
Culturais
 
 
Magreza vista como símbolo de sucesso

Fonte Revista Encontro

Segundo Cash e Deagle (1997), o distúrbio da imagem corporal é um sintoma nuclear dos transtornos alimentares, caracterizado por uma auto-avaliação dos indivíduos que sofrem desse transtorno, influenciada pela experiência com seu peso e forma corporal.

Distorções cognitivas relacionadas à avaliação do corpo, comuns em indivíduos com transtornos alimentares, incluem: pensamento dicotômico – o indivíduo pensa em extremos com relação à sua aparência ou é muito crítico em relação a ela; comparação injusta – quando o indivíduo compara sua aparência com padrões extremos; atenção seletiva – focaliza um aspecto da aparência e erro cognitivo, o indivíduo acredita que os outros pensam como ele em relação à sua aparência.

Embora uma insatisfação ou distorção da imagem corporal possa estar presente em outros quadros psiquiátricos como transtorno dismórfico corporal, delírios somáticos, transexualismo, depressão, esquizofrenia e obesidade, é nos transtornos alimentares que seu papel sintomatológico e prognóstico é mais relevante.

Por isso, a reeducação alimentar é um ótimo aliado do emagrecimento saudável. Não caia nessa de fazer qualquer dieta em nome do corpo enxuto. É preciso controlar o peso, sim, mas sem comprometer a saúde.

E no grande dia o mais importante é uma noiva feliz, em que todos possam olhar e perceber como o amor é o mais importante, e não se o vestido está de forma x ou y ou se a noiva emagreceu ou engordou. Lembrem sempre que a felicidade não está atrelada aos modelos apresentados pelas da mídia.

Fontes de pesquisa:
MORGAN CM; VECCHIATTI IR, NEGRAO AB (2002) Etiologia dos transtornos alimentares: aspectos biológicos, psicológicos e sócio-culturais. Rev. Bras. Psiquiatr [online]. vol. 24, suppl.3, pp. 18-23
SAIKALI CJ, SOUBHIA CS, SCALFARO BM CORDÁS TA. (s.d.) Imagem corporal nos transtornos alimentares. Revista de psiquiatria clínica. Órgão Oficial do Departamento e Instituto de Psiquiatria Faculdade de Medicina – Universidade de São Paulo