O ritual do casamento X o consumo no casamento

Postado em 19 ago, 2013 - Dicas Noivas

[denoivaparamae]_post_03No dia 14/08/2013 foi publicado no Valor Econômico S.A, “Casamentos são termômetro da sociedade” por Angela Klinke, o qual chama a atenção para a estreita relação entre os estilos de casamento e a sociedade de consumo. Carol Montenegro, idealizadora do Bride Style, no artigo mencionado, diz que no Brasil são gastos em média nos casamentos  “baratinho”  R$ 20 mil para 200 convidados, contudo há espaço para casamentos no “seguimento Premium“:

“Pelo modelo que desenvolvi e pela seleção de fornecedores, participam (do evento Bride Style) cerca de 800 noivas que gastam em torno de R$ 250 mil nos seus casamentos com até 300 convidados”, diz ela. Mesmo com esse valor, o casamento não é considerado “de luxo”. “Ele começa a ficar mais ‘high’ a partir de R$ 500 mil”

O perfil dos casamentos no Brasil

De acordo com IBGE em 2010 foram registrados 977.620 casamentos no Brasil, um incremento de 4,5% em relação a 2009. A maior parte deles envolveu cônjuges solteiros (81,7%). Os recasamentos (casamentos em que pelo menos um dos cônjuges era divorciado ou viúvo) totalizaram 18,3% das uniões, um crescimento em relação a 2000 (11,7%).

Ainda segundo dados do IBGE, há 34 milhões de solteiros no Brasil entre 20 e 40 anos. Eles nasceram nas décadas de 70 e 80 e formam a maior geração de todos os tempos. Pensando no futuro do mercado, os brasileiros solteiros, 22 milhões entre as classes A, B e C, 41% pretendem se casar nos próximos 2 anos. Se estes números forem atrelados ao aquecimento da economia, que eleva o poder de compra da população, o número de casamentos tendem a continuar no mesmo ritmo de crescimento. Se apenas a metade destes 41% concretizarem o desejo, o resultado será algo em torno de 70 milhões de reais movimentados, em média, por dia.

Pesquisa realizada pela Abrafesta/Data Popular em 2012, estima um giro de R$ 14,8 bilhões no mercado de casamentos, este número engloba tudo o que se refere à realização dos eventos, tais como buffet, fotógrafos, maquiador, cabeleireiro, ornamentação, garçons e muito mais. Quanto mais alto o poder aquisitivo de uma camada da população, maior é a proporção de casamentos. Por enquanto, na classe C há 40% de pessoas casadas. Na classe E, apenas um terço.

Desde 2003 o crescimento anual médio deste mercado foi de 10,4% e só em 2011 foram realizados 1 milhão de casamentos no Brasil. Claro, nem todos tiveram uma bela festa, mas os que fizeram gastaram bem. Brasília lidera com a maior média de gastos, sendo 174% acima da média brasileira, mas a maior parte dos fornecedores está na Região Sudeste.

Ainda de acordo com a pesquisa do IBGE, nas famílias com renda superior a 14.000 reais, metade das pessoas são casadas – ante 35% nas famílias com renda até 960 reais e os consumidores de alta renda vêm aumentando rapidamente. Os consumidores de alta renda  vêm aumentando rapidamente, e segundo a Anbima,  a cada dia oito pessoas se juntam ao grupo de brasileiros com mais de 1 milhão de reais em aplicações, “Eles querem comodidade”, diz Débora Gambaroni, da consultoria MCF, especializada no mercado de luxo. Havendo assim uma expansão no mercado de luxo no Brasil.

De acordo com Angela Klinke, com base nas publicações do site britânico The Business of FashionInside India’s Big Fat $38 Billion Wedding Market, Part 1 e Inside India’s Big Fat $38 Billion Wedding Market, Part 2

O luxo envergonhado foi um fenômeno restrito aos países ricos que sofreram profundamente com a crise. Lá, os mais afortunados sentiram-se momentaneamente constrangidos em exibir seus ícones de luxo diante de compatriotas empobrecidos. Nos países emergentes, em que a distribuição de renda é tão desigual, não há pudor com a ostentação, mas sim medo da violência. Mesmo assim, os contrastes geram um certo desconforto e pessoas buscam ressignificar a rotina, dando mais valor ao tempo e à qualidade de vida. Os casamentos são um termômetro da sociedade de consumo, o ápice dos excessos. Se há indianos e brasileiros abastados, mas interessados em menos pompa até quando sobem ao altar, o luxo também vai ter de mudar de roupa.

O ritual do casamento  X  o consumo no casamento

Contudo, ainda é possível encontrar casais que busquem a ostentação em suas festas de casamento

“Sempre vai ter quem busque status com a festa de casamento, mas há mais gente querendo qualidade e talento”, diz Carol Montenegro.

 Neste sentindo, temos o casamento intimamente ligado ao consumo e a estetização da vida, onde os valores movimentados pela indústria do casamento mostram que todos os detalhes e itens da união tem seu preço, sendo assim considerado um mercado simbólico, e na soma final do orçamento, os casais acabam por investir valores muito além da média de mercado e de poder aquisitivo médio da população nas cerimônias chegando a valores de aproximadamente R$1.000,00 por convidados, pois, além de ser um marco na vida pessoal, acredita-se que impressionar é preciso.

Em uma sociedade louca e ávida pelas mais novas novidades de consumo e que se perdem na extensa lista desses novos e supostos objetos essenciais as necessidades do desejo, a ideia principal é que o casamento se transformou numa grande  atração, em que todos os elementos que compôs esse cenário foram meticulosamente pensados e calculados para causar o efeito desejado o de atiçar o espírito consumista das pessoas.

(…) por meio da publicidade, do acesso ao crédito, da superabundância dos haveres e lazeres, o capitalismo das necessidades aboliu a aura popular dos ideais, à guisa de uma busca  de novos prazeres e da concretização do sonho de felicidade pessoal. Edificou-se uma nova civilização, não mais voltada para refrear o desejo, mas, ao contrário, para levá-lo à sua exacerbação extrema, despojando-o de qualquer conotação negativa. A fruição do momento presente, o culto de si próprio, a exaltação do corpo e do conforto passaram a ser a nova Jerusalém dos tempos pós-moralistas (Lipovetsky, 2005, p.29).

“A síndrome consumista envolve velocidade, excesso e desperdício”  (Bauman, 2008, pg. 111) e neste sociedade de consumo, a rapidez de adquirir algo novo, que muitas vezes, não necessitamos, se faz imprescindível e descartá-lo o mais rápido possível para que possamos dá espaço para que novas coisas que se fazem necessárias em nosso cotidiano permitem que a sociedade de consumo desperdice tempo e dinheiro também modificam os casamentos tornando nada mais do que mercadorias.

Este casamento visto como uma mercadoria se enquadra no chamado “hipermercado de consumo”. O mercado vai além da medida, no qual o preço representativo ganha peso e o valor de signo é maior que o valor de uso, o ritual ganhou mais importância como um fator validador de sua autenticidade na cultura do ver, ser é ser percebido.

Assim, os ritos de passagem que marcam transições definitivas e definidoras de escolhas que marcam os rumos a serem tomados na vida, sendo parte da construção e da afirmação da identidade humana frente ao que o mundo nos apresenta. Simbolizam, a aceitação por parte do indivíduo das crenças, costumes e normas comunitárias: ao submeter-se às provas ele dá o seu assentimento à tradição, portanto, o reconhecimento social do indivíduo e a sua integração no grupo.

Nos dias de hoje, ou seja, nas sociedades modernas e industrializadas mesmo ritos de passagem continuando a existir, estes foram perdendo o seu significado primário, passando a representar meramente um evento social, como por exemplo, as ostentações nas festas de casamento em que se é deixado de lado o essencial da união de duas pessoas e famílias; e sendo deixado de lado toda a preparação psicológica para as mudanças que estão por vim.

De acordo com Bauman (2004), os relacionamentos em geral, estão sendo tratados como mercadorias. Se existe algum defeito, podem ser trocadas por outras, mas não há garantia de que gostem do novo produto ou que possam receber seu dinheiro de volta. Hoje em dia os automóveis, computadores ou celulares em bom estado e em bom funcionamento são trocados como um monte de lixo no momento em que aparecem versões mais atualizadas. E assim acontece com os relacionamentos, não gostou, pode trocar, assim ninguém sofre. Também existem os relacionamentos de bolso, do tipo que pode-se usar e dispor quando for necessário e depois tornar a guardar para ser utilizado numa outra ocasião.

A sociedade atual está criando uma nova ética do relacionamento, os relacionamentos estão cada vez mais fragilizados e desumanos. A confiança no próximo está cada vez mais próxima de terminar definitivamente. Os seres humanos estão sendo usados por eles mesmos.

Junto com a banalização dos ritos de passagem, que não deveria ocorrer, temos a mudança de foco do casamento, deixando de lado a construção da conjugalidade, que já falamos em três posts anteriores aquiaqui e aqui; para o foco no que é possível mostrar para a sociedade. Devemos pensar que não há nada de errado em querer oferecer o melhor que puder na recepção dos convidados, mas o essencial do rito de passagem do casamento nunca deve ser deixado de lado.

Para finalizar deixo um trecho do Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry, Antoine

“(…)Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração… É preciso ritos.

– Que é um rito? Perguntou o Principezinho.

– É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!(…)”

Referências:

BAUMAM, Zygmunt (2008). Vida para o consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

BAUMAN, Zygmunt (2004). Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

LIPOVETSKY, Gilles. (2005). A sociedade pós-moralista: o crepúsculo do dever e a ética indolor dos novos tempos democráticos. Gilles Lipovetsky, tradução de Armando Braio Ara. – Barueri, SP: Manole.

A expansão do mercado de casamentos