Conjugalidade e individualidade

Postado em 10 out, 2014 - Dicas Noivas, Psicologia

[denoivaparamae]_post_05“Costumo dizer que todo fascínio e toda dificuldade de ser casal reside no fato de o casal encerrar, ao mesmo tempo, a sua dinâmica, duas individualidades e uma conjugalidade, ou seja, de o casal conter dois sujeitos, dois desejos, duas inserções no mundo, duas percepções do mundo, duas histórias de vida, dois projetos de vida, duas identidades individuais que na relação amorosa, convivem com uma conjugalidade, um desejo conjunto, uma história de vida conjugal, um projeto de vida de casal, uma identidade conjugal. Como ser dois sendo um? Como ser um sendo dói?” (Féres-Carneiro, 1998, p.1)

O casamento por amor como o compreendemos na atualidade é uma invenção recente, surgida no período compreendido entre os séculos XVII e XVIII, com o advento do individualismo e das exigências de controle dos comportamentos, operacionalizadas através da instituição de “normas de civilidade” ou da “gramática dos gestos”.

O indivíduo e o casal romântico, estruturado “no amor divino que une duas almas na terra” são invenções precisamente dessa época, na Europa, e daí disseminada para as colônias que explorava.

Até o século XIX, o modelo que vigora no interior das famílias europeias era profundamente hierarquizado: a família-tronco correspondia à maior parte das vezes a um modelo de exploração agrícola da pequena propriedade familiar, que não contemplava a partilha entre os filhos, a sucessão restrita ao filho mais velho. A solidariedade pautava-se em laços de linhagem e não numa concepção universal humanista (ARIÈS e DUBY, 1991, p. 254; 540).

Em torno do novo ideal de conjugalidade instaurado, criaram-se muitas expectativas e idealizações, entre elas a ideia de casamento como lugar de felicidade onde o amor e a sexualidade são fundamentais. Desde então, a instituição casamento, moldada pelas determinações econômicas, sociais, culturais, de classe e gênero tem assumido inúmeras formas.

Fundado em nome do amor, o casal moderno está comprometido com a ideia de que se estrutura em função de um encontro psicológico singular, sendo-lhe estranha a ideia de transcendência e sujeição a regras sociais. Em consonância com valores do individualismo, apresenta-se ordenado internamente por um princípio da igualdade, rejeitando qualquer diferença estatutária.
Desta forma, o amor pode ser considerado é um sistema complexo e dinâmico que envolve cognições, emoções e comportamentos relacionados muitas vezes à felicidade para o ser humano; diferiria da paixão por sua maior permanência e menor efusividade que a paixão, embora não se omitam os estados de alegria e de tristeza relacionados a sua presença ou mesmo a sua ausência para o ser humano
A construção da conjugalidade (vínculo afetivo resultante da união formal ou consensual) demanda um grande investimento por parte de um casal. São duas histórias de vida familiar, distintas, que se encontram; duas tradições diferentes; duas visões de mundo; sem falar na pluralidade de subjetividades, tanto por parte da família de um quanto do outro, que se mesclam.
Um casal contém muito da relação social que a amizade representa nesse universo – apoio psicológico, companheirismo, embora ela admita uma certa interdição de relações sexuais – mas dela se diferencia justamente pela ideia de precedência sobre as demais relações. Mas, a conjugalidade moderna adota como ideal a preservação da autonomia individual e da singularidade que a relação da amizade nesse contexto moral exibe.
Imaginem, então, quando essa conjugalidade, além de lidar com todos esses fatores diferentes (história de vida, personalidade, desejos), acrescenta a eles o encontro entre duas etnias nacionalidades também distintas. De acordo com Crohn (2003, p. 340), “ etnia, religião, raça, gênero e classe realmente influenciam todos os aspectos por meio dos quais as pessoas enxergam o mundo e o que elas consideram “normal” ou “anormal”. A cultura molda as atitudes com relação ao tempo, à família, à alimentação, ao dinheiro, ao sexo e à monogamia.”

Fica então a pergunta Como ser dois sendo um? Como ser um sendo dói? Podemos então pensar que um casal para ser tornar realmente um casal, precisa cumplicidade. Se um não está disposto a defender o outro ao custo do seu próprio bem-estar, se não está disposto a permanecer junto nos momentos de necessidade, mesmo que prefira estar em outro lugar, ou mesmo que seja perigoso ficar junto, então não há cumplicidade. E cumplicidade não é fechar-se num ciúme doentio, mesmo que mútuo ou socialmente aceitável, onde cada um cria obstáculos para impedir o outro de se relacionar com outras pessoas.

Mas na contemporaneidade nem sempre observamos a cumplicidade. De acordo com Bauman (2004), os relacionamentos em geral, estão sendo tratados como mercadorias. Se existe algum defeito, podem ser trocadas por outras, mas não há garantia de que gostem do novo produto ou que possam receber seu dinheiro de volta. Hoje em dia os automóveis, computadores ou celulares em bom estado e em bom funcionamento são trocados como um monte de lixo no momento em que aparecem versões mais atualizadas. E assim acontece com os relacionamentos, não gostou, pode trocar, assim ninguém sofre. Também existem os relacionamentos de bolso, do tipo que pode-se usar e dispor quando for necessário e depois tornar a guardar para ser utilizado numa outra ocasião.
A sociedade atual está criando uma nova ética do relacionamento, os relacionamentos estão cada vez mais fragilizados e desumanos. A confiança no próximo está cada vez mais próxima de terminar definitivamente. Os seres humanos estão sendo usados por eles mesmos.
Com isto, deixo então para cada um pensar em como podemos modificar a realidade das relações descartáveis e do império da individualidade.
Fontes de pesquisa:
ARAUJO, MF. (2002) Amor, casamento e sexualidade: velhas e novas configurações. Psicol. cienc. prof. [online]. 2002, vol.22, n.2, pp. 70-77.
ARIÈS, Phillippe e DUBY, Georges. História da vida privada. Da renascença ao Século das Luzes. Volume 3. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
BAUMAN, Z. (2004) Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
COSTA, S. (2005). Amores fáceis: romantismo e consumo na modernidade tardia. Novos Estudos – CEBRAP, (73), 111-124. Retrieved January 07.
HEILBORN, ML. (1992) Vida a Dois: Conjugalidade Igualitária e Identidade Sexual In: Anais do VIII Encontro Nacional de Estudos Populacionais – vol. 2. São Paulo, Associação Brasileira de Estudos Populacionais – ABEP, p. 143-156.