Conjugalidade e etnocentrismo: o casamento intercultural

Postado em 12 ago, 2013 - Dicas Noivas, Psicologia

A ideia de que um casal é formado por duas individualidades e uma conjugalidade aparece com frequência na literatura, e nela tem sido discutida amplamente. Entretanto, nas pesquisas sobre atitudes e percepções dos membros do casal, seja em relação ao parceiro, seja em relação a alguma condição transubjetiva que afete ambos, ainda são pouco frequentes os estudos que consideram independentemente as respostas dos dois cônjuges de forma explícita e simultânea  (Ziviani, 2005).

Fonte: http://asianfusionweddings.com/

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Já falamos um pouco sobre conjugalidade antes nos posts Conjugalidade e individualidade e no Casamento: expectativas e idealizações.

Mas então qual o motivo de fazer mais um texto sobre conjugalidade? E porque inserir o etnocentrismo?

Bem, primeiro é preciso definir de forma clara qual conceito vamos adotar como conjugalidade e etnocentrismo.

Conjugalidade derivado de conjugal (lat conjugale) é o que diz respeito à união entre os cônjuges.

Etnocentrismo consiste em privilegiar um universo de representações propondo-o como modelo e reduzindo à insignificância os demais universos e culturas “diferentes”, ou seja o etnocentrismo é um conceito antropológico, que ocorre quando um determinado individuo ou grupo de pessoas, que têm os mesmos hábitos e caráter social, discrimina outro.

Agora que já definimos os termos chaves, vou explicar a importância deles para falar um pouco do casamento. Em qualquer casamento, seja intercultural ou não, existe a influência das famílias. E como lidar com isso?

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Fonte: http://asianfusionweddings.com/

Se pensarmos que a  construção da conjugalidade (vínculo afetivo resultante da união formal ou consensual) demanda um grande investimento por parte de um casal, pois são duas histórias de vida familiar distintas, que se encontram; duas tradições diferentes; duas visões de mundo; sem falar na pluralidade de subjetividades, tanto por parte da família de um quanto do outro, que se mesclam. Imaginem, então, quando essa conjugalidade, além de lidar com todos esses fatores diferentes, acrescentamos o encontro entre duas etnias também distintas.

Uma etnia implica diferenças socioculturais que se refletem na língua, na religião, em maneiras de agir e de pensar. A cultura inerente às etnias envolvem a cultura no que tange aos valores e visões de mundo sendo  fundamental para a constituição dos indivíduos, servindo-nos como parâmetro para nosso comportamento moral, por exemplo.

Se a conjugalidade entre pessoas de um mesmo grupo étnico já enfrenta uma série de dificuldades, o que ocorre quando ela se dá entre duas culturas diferentes? E quando neste contexto uma das famílias, ou ambas acabam por realizar uma uma avaliação pautada apenas em juízos de valor daquilo que é considerado diferente?

Limitar-se à avaliação apenas com base em sua cultura, desconhecendo ou depreciando as demais culturas de povos ou grupos dos quais não fazemos parte, pode nos levar a uma visão estreita das dimensões da vida humana. O etnocentrismo, dessa forma, trata-se de uma visão que toma a cultura do outro (alheia ao observador) como algo menor, sem valor, errado ou primitivo. Ou seja, a visão etnocêntrica desconsidera a lógica de funcionamento de outra cultura, limitando-se à visão que possui como referência cultural. A herança cultural que recebemos de nossos pais e antepassados contribui para isso, pois nos condiciona ao mesmo tempo em que nos educa.

Tomar conhecimento do outro sem aceitar sua lógica de pensamento e de seus hábitos acaba por gerar uma visão etnocêntrica e preconceituosa, o que pode até mesmo se desdobrar em conflitos diretos. O etnocentrismo está, certamente, entre as principais causas da intolerância internacional e da xenofobia (preconceito contra estrangeiros ou pessoas oriundas de outras origens).  A visão etnocêntrica caminha na contramão do processo de integração global decorrente da modernização dos meios de comunicação como a internet, pois é sinônimo de estranheza e de falta de tolerância.

  • E como cada pessoa pode identificar aquilo que é trazido da sua família de origem e que passa a ser integrado à nova relação a dois após o casamento?
  • Quais são as maiores áreas que dificultam e interferem?
  • Que atitudes os casais devem adotar neste momento para salvar o relacionamento conjugal sem que cada um perca a sua individualidade?

Estas são importantes questões que o casal deve fazer para evitar conflitos desnecessários.

Fonte: http://asianfusionweddings.com/

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Em estudos realizados com casais biculturais, o que se sugere é que os rituais familiares e a língua/comunicação são considerados os temas mais pertinentes enquanto fatores protetores e factores de risco para o relacionamento. Em um outro estudo comparando casais monoculturais e biculturais, os resultados sugerem que casais monoculturais e biculturais não diferem substancialmente na satisfação conjugal global. No entanto, os casais biculturais revelaram um maior grau de intimidade e também um maior grau de conflitos. Além disso, nos casais biculturais, verifica-se uma maior flexibilidade dos rituais familiares e culturais. Foi encontrado uma maior diferença nos rituais familiares e culturais para os casais biculturais, que, no entanto, não constituiu um fator de risco. Foi, ainda, registada uma maior ritualização e um maior significado atribuído aos rituais culturais como fatores protetores mais pertinentes para os casais monoculturais.

Os fatores protetores identificados para os casais biculturais são:

  • um maior significado atribuído aos rituais familiares,
  • um maior acordo sobre a forma como se realizam os rituais familiares e culturais,
  • e um maior domínio da língua materna do marido por parte da mulher.

Sendo assim, os resultados apontam, também, para a existência de um papel preponderante da família de origem da mulher na transmissão dos rituais familiares. E que em casais biculturais coexistem pelo menos duas línguas maternas e que tanto a língua como os rituais familiares parecem estar estritamente ligados à cultura dos cônjuges. Os rituais familiares permitem verificar como a cultura afeta ou interfere com o funcionamento de toda a família, porque estão intrinsecamente ligados aos contextos culturais mais vastos

Com relação à realidade brasileira, em pesquisa realizada pelo IBGE mostra que 75% dos homens brancos e 74% das mulheres brancas se uniram a pessoas da mesma raça. Desfazendo, portanto, o mito de que o Brasil é um país mestiço, dados do Censo do IBGE de 2010 divulgados mostram que o brasileiro busca seu “par perfeito” em seu próprio grupo étnico e entre pessoas de mesmo nível de instrução, o que aponta uma tendência de união “entre iguais”.

Apesar de políticas oficiais de equidade de raça, o casamento inter-racial não avançou na década passada. O total de homens e mulheres brancos que escolheram se casar com pardas e pardos cresceu de 2000 para 2010. Mas, por outro lado, caiu o número de homens e mulheres pardos que escolheram se unir a brancos e brancas, estancando uma tendência de ampliação dos casamentos inter-raciais registrada nas décadas anteriores, de acordo com o IBGE. Ainda assim, alguns dados do Censo chamam a atenção, como o fato das mulheres negras casarem-se mais com homens brancos (25,5% das uniões desse grupo) do que com pardos (22,9%).

E depois de pensar nisto tudo que falamos, surge que é preciso ao casal estabelecer um bom relacionamento com as famílias é um ponto importante para casais que pretendem viver uma história longa e feliz. Ser bem aceito pelos familiares do cônjuge é fundamental para evitar muitos problemas.

Os problemas de relacionamento e a interferência da família e de culturas diferentes devem ser cuidadosamente tratados pelo casal. Quando um casal consegue conversar sobre qualquer assunto com clareza e naturalidade, os problemas externos são menos sentidos. E ao perceber que um familiar específico será uma fonte de constante implicância, além do diálogo entre o casal, a melhor solução é manter o bom humor. Pensando sempre que não há problema que não tenha uma solução, e que manter uma convivência respeitosa e ética, privilegiando a diplomacia e não cedendo às provocações do “familiar implicante”.

É importante considerar também que todas as culturas carregam consigo histórias, crenças e um jeito próprio de se posicionar e fazer as coisas. Diferem portanto, acerca do que é considerado um comportamento aceitável ou não, os padrões de comunicação, limites e hierarquia.

Para finalizar, é sempre bom lembrar que quando o casal está seguro de seus sentimentos e consegue se expressar sem dificuldade, não há quem ou o que  possa ser um obstáculo para a relação. E pensar que sempre é preciso mudar, rever conceitos, aceitar o outro mesmo pensando diferente do que estamos acostumados.

“Porque o mundo é grande demais para se nascer e morrer no mesmo lugar.” (Pablo Neruda)

Fonte: http://asianfusionweddings.com/

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Fontes de pesquisa:

ARAUJO, MF. (2002) Amor, casamento e sexualidade: velhas e novas configurações.Psicol. cienc. prof. [online]. 2002, vol.22, n.2, pp. 70-77.
ARIÈS, Phillippe e DUBY, Georges. História da vida privada. Da renascença ao Século das Luzes. Volume 3. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
BAPTISTA, MN; TEODORO, MLM. (2012) Psicologia de família: teoria, avaliação e intervenção. Porto Alegre: Artmed.
BAUMAN, Z. (2004) Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
CARVALHO, JCP. (1997). Etnocentrismo: inconsciente, imaginário e preconceito no universo das organizações educativas. Interface – Comunicação, Saúde, Educação1(1), 181-186
COSTA, S. (2005). Amores fáceis: romantismo e consumo na modernidade tardia. Novos Estudos – CEBRAP, (73), 111-124. Retrieved January 07.
HEILBORN, ML. (1992) Vida a Dois: Conjugalidade Igualitária e Identidade Sexual In: Anais do VIII Encontro Nacional de Estudos Populacionais – vol. 2. São Paulo, Associação Brasileira de Estudos Populacionais – ABEP, p. 143-156.
RÜDIGER, LW. (2008) Casais biculturais e monoculturais: diferenças e recursos. Tese de doutorado apresentada à Universidade de Lisboa.