O que é o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)?

Postado em 13 fev, 2013 - Dicas Mamães, Psicologia
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Como psicóloga, tenho visto no consultório e fora dele, um grande número de pais, professores e outros profissionais de saúde questionando-se sobre o que é o TDAH e se ele realmente existe. Por isso, resolvi escrever um breve texto com base em referências científicas explicando um pouco o que é o TDAH.

 

Para começar, podemos afirmar que o TDAH é muito mais frequente do que se imaginava e já existem estudos suficientes confirmando que em um grande número dos casos seus sintomas persistem durante toda a vida e causam grande impacto negativo nas diversas áreas da vida dos seus portadores. O TDAH não é apenas um problema comportamental. Essas dificuldades acabam determinando comprometimento do aprendizado, com gravidades variáveis. Sendo assim, o TDAH pode ser determinante para uma formação profissional aquém do esperado para suas capacidades, para comprometimentos permanentes na auto-estima e relacionamentos sociais frágeis e com grande número de frustrações.

 

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De acordo com a quarta edição revisada do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria (DSM-IV-TR), o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é caracterizado pela presença de seis ou mais sintomas de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade. O DSM-IV-TR não apresenta critérios específicos de acordo com a idade, mas propõe distinguir três subtipos de TDAH: o subtipo prioritariamente desatento, subtipo prioritariamente hiperativo-impulsivo e o subtipo combinado (APA, 2002). Além da dificuldade em sustentar a atenção e/ou inibir comportamentos e pensamentos distratores, pacientes com TDAH frequentemente apresentam dificuldades com planejamento e organização para as atividades rotineiras, problemas com a memória de trabalho e dificuldades nas ações dirigidas a objetivos não-imediatos (Barkley, 2002).

 

Os sintomas de TDAH podem manifestar-se desde uma idade muito precoce. Nos relatos dos pais, entre outras pessoas, é observada certa inquietude desde o berço (sono agitado, choro fácil e intensa movimentação). Na fase pré-escolar, os professores sinalizam estas crianças como tendo uma energia muito maior em relação às outras crianças da mesma idade.

 

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O TDAH é um dos transtornos psiquiátricos mais frequentes na infância, com prevalência estimada de 6,5% em crianças em idade escolar (Polanczyk et. al., 2007). Sabe-se atualmente que em cerca de 50% a 65% dos casos os sintomas persistirão até a adolescência e idade adulta. Estima-se que cerca de 3% de adultos sejam portadores de TDAH (Kessler et. al., 2006).

 

Tanto em crianças quanto em adolescentes e adultos com TDAH, são frequentes as altas taxas de comorbidade com outros transtornos psiquiátricos, tais como transtornos de ansiedade, transtornos de humor, transtornos disruptivos (transtorno de oposição e desafio e transtorno de conduta), e abuso e/ou dependência de substâncias, além das dificuldades de aprendizagem, baixa auto-estima,e comprometimento da sociabilidade (Busch et. al., 2002; Fischer et. al., 2002).

 

Contudo, mesmo o TDAH sendo um transtorno que apresenta claros prejuízos ao sujeito, além de ser um transtorno muito estudado no mundo e de ser conhecido na literatura médica há pelo menos um século, o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade ainda é alvo de muitas controvérsias (Wright et. al., 2008).

 

Esta desconfiança da sua real existência e um diagnóstico errôneo, pode causar graves prejuízos à criança/adolescente, pois vários estudos têm demonstrado que a ausência de tratamento e a persistência dos sintomas de TDAH ao longo da vida causam grande impacto no desenvolvimento pessoal, familiar e profissional, além dos altos custos a nível de saúde pública (Pelham et. al., 2007; Nyden et. al., 2008; Fletcher & Wolfe, 2009).

Tratamento do TDAH

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O tratamento começa com uma avaliação detalhada do paciente, sua família e o ambiente em que vive. O diagnóstico de TDAH é clínico, e deve ser baseado em informações cuidadosas sobre o funcionamento do adolescente em vários ambientes como casa, escola, e com amigos. Além da avaliação subjetiva, é importante coletar dados objetivos sobre os sintomas e outros aspectos comportamentais, tanto antes do início do tratamento quanto durante o mesmo, para que seja possível elaborar um planejamento terapêutico individualizado para cada paciente. Na maioria das vezes o tratamento deve abranger estratégias psicoeducacionais (com orientações para pacientes, familiares e professores), intervenções psicoterapêuticas e tratamento farmacológico (National Institute for Health and Clinical Excellence: Attention deficit hyperactivity disorder, 2009; Kooij et. al., 2010).

 

Inúmeros ensaios clínicos duplo-cegos, randomizados, controlados com placebo têm reportado que o uso de psicoestimulantes é eficaz e seguro para o tratamento de pacientes com TDAH (Pliszka, 2007). Apesar da grande maioria dos pacientes com TDAH responder muito bem ao tratamento com psicoestimulantes, alguns pacientes apresentam efeitos colaterais importantes e precisam suspender a medicação. Outrossim, a aderência ao tratamento varia bastante e tende a reduzir significativamente com a idade. Além desses fatores, é importante ressaltar que ainda são poucas as evidências de que a medicação seja realmente benéfica para o tratamento a longo prazo do TDAH (Molina et. al., 2009).

 

Desta forma, o tratamento medicamentoso aplicado de forma isolada pode não contemplar toda complexidade clínica e de prejuízos psicossociais decorrentes do TDAH e nesse sentido as intervenções psicoterapêuticas podem ter papel relevante no tratamento desta condição. Algumas diretrizes clínicas apontam que a psicoterapia pode inclusive ser a primeira opção de tratamento, por exemplo em crianças pré-escolares (Subcommittee on ADHD, 2011).

 

Entre as psicoterapias, as que têm demostrado maior evidência de eficácia para o tratamento do TDAH são aquelas que envolvem componentes comportamentais (Pelham &, Fabiano, 2008; Young & Amarasinghe, 2010; Antshel, et. al, 2012). A terapia comportamental e/ou cognitivo-comportamental (TCC) utiliza várias estratégias no tratamento do TDAH, tais como: a) psicoeducação sobre o TDAH e possíveis comorbidades; b) organização e planejamento dos objetivos e atividades diárias; c) estratégias para lidar com os sintomas; d) estratégias para desenvolver comportamento adaptativo e capacidade de solucionar problemas; e) estratégias para desenvolver a sociabilidade (National Institute for Health and Clinical Excellence: Attention deficit hyperactivity disorder, 2009).

 

Entre os tipos de intervenções comportamentais, os que têm maior evidência de aficácia para o tratamento de pacientes com TDAH são o treino parental, o manejo comportamental em sala de aula e o treino de habilidades sociais, especialmente se realizado de forma intensiva e em ambientes recreacionais em grupo, tais como os “programas de verão”.

 

Programas de treinamento parental têm demonstrado eficácia para crianças TDAH, especialmente com comportamento disruptivo. Algumas técnicas de treino parental consistem em técnicas de condicionamento operante, como aplicação contingente de reforço ou punição depois de comportamentos apropriados ou inadequados. Procedimentos de reforço incluem elogios, privilégios ou pontos simbólicos que podem ser trocados por prêmios ou gratificações. Métodos punitivos usualmente envolvem perda de atenção ou de privilégios ou retirada formal de um ambiente recompensador (Antshel & Barkley , 2008; Antshel, 2012).

 

A escolha de quais estratégias e/ou técnicas serão usadas deve ser feita a partir das características de cada paciente, sua família e o ambiente em que vive, além da faixa etária.

 

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Por isso, o tratamento do TDAH deve ser multimodal, com a combinação de medicamentos, psicoeducação e técnicas psicoterapêuticas específicas para cada paciente. A TCC tem sido a abordagem preferencialmente usada no tratamento dos portadores de TDAH pois é a única que apresenta dados objetivos de eficácia e efetividade no tratamento de pacientes com TDAH, especialmente os que apresentam comorbidades. Quando diagnosticado precocemente e com tratamento adequado, o portador de TDAH pode deixar de ser “refém” dos sintomas de TDAH e suas consequências.

Para finalizar, deixo claro que este texto não pretende fornecer ferramentas para o diagnóstico por não profissionais. Caso você acredite que seu filho ou você tem algum sintoma, procure um profissional especializado para um diagnostico preciso!

Como fonte de maiores informações acessem o site da Associação Brasileira do Défict deAtenção (ABDA), bem como o manifesto de esclarecimento à sociedade sobre o TDAH, o seudiagnóstico e tratamento.

Referências:

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APA (2002) DSM-IV-TR- Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Trd. Cláudia Dornelles; 4. ed. ver. Porto Alegre: Artmed, 2002.

Barkley, RA (2002) Transtorno de Déficit de Atenção Hiperatividade (TDAH). Porto Alegre: Artmed.

Busch B, Biederman J, Cohen LG, Sayer JM, Monuteaux MC, Mick E, Faraone SV. (2002). Correlates of ADHD among children in pediatric and psychiatric clinics. Psychiatric Services, 53, 1103-1111.

Fischer M, Barkley RA, Smallish L, Fletcher K. (2002). Young adult follow-up of hyperactive children: Self-reported psychiatric disorders, comorbidity, and the role of childhood conduct problems and teen CD. Journal of Abnormal Child Psychology, 30, 463-475.

Fletcher J, Wolfe B (2009). Long-term Consequences of Childhood ADHD on Criminal activities J Ment Health Policy Econ. Sep;12(3):119-38.

Kessler RC, Adler L, Barkley R, Biederman J, Conners CK, Demler O, … Zaslavsky AM. (2006). The prevalence and correlates of adult ADHD in the United States: Results from the National Comorbidity Survey Replication. American Journal of Psychiatry, 163, 716-723.

Kooij SJ, Bejerot S, Blackwell A, Caci H, Casas-Brugué M, Carpentier PJ,Edvinsson D, Fayyad J, Foeken K, Fitzgerald M, Gaillac V, Ginsberg Y, Henry C, Krause J, Lensing MB, Manor I, Niederhofer H, Nunes-Filipe C, Ohlmeier MD, Oswald P, Pallanti S, Pehlivanidis A, Ramos-Quiroga JA, Rastam M, Ryffel-Rawak D, Stes S, Asherson P (2010) European consensus statement on diagnosis and treatment of adult ADHD: The European Network Adult ADHD. BMC Psychiatry, 3(Suppl 10):67.

Molina BSG, Hinshaw SP, Swanson JM, Arnold, LE.; Vitiello, B.; Jensen, PS.; Epstein, JN.; Hoza, B.; Hechtman, L.; Abikoff, HB.; Elliott, GR.; Greenhill, LL.; Newcorn, JH.; Wells, KC>; Wigal, T.; Gibbons, RD.; HUR, K.; Houck, PR; The MTA Cooperative Group. The MTA at 8 years: prospective follow-up of children treated for combined-type ADHD in a multisite study. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry. 2009;48(5):484–500.

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Wright, JH., Basco, MR., Thase, M. (2008). Aprendendo a terapia cognitivo-comportamental: um guia ilustrado; tradução Mônica Giglio Armando. – Porto Alegre: Artmed.

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