Consciência fonológica e aquisição da leitura e escrita – parte 1

Postado em 16 abr, 2013 - Dicas Mamães, Psicologia
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A consciência fonológica refere-se tanto à consciência de que a fala pode ser segmentada quanto à habilidade de manipular tais segmentos, que se desenvolve gradualmente à medida que a criança vai tomando consciência de palavras, sílabas e fonemas, ou seja, do sistema sonoro da língua como unidades identificáveis. Diversos trabalhos têm relatado que esta habilidade se correlaciona com o sucesso na aquisição da linguagem escrita, de forma que a importância da consciência fonológica para o processo de aquisição da leitura e da escrita tem sido bem reconhecida.

Nos estudos sobre a consciência fonológica existem controvérsias a respeito do papel da introdução do sistema alfabético como o fator causal do desenvolvimento da referida consciência (Morais, 1979). A complexidade deste conceito provavelmente explica as controvérsias existentes. A consciência fonológica pode ser entendida como um conjunto de habilidades que vão desde a simples percepção global do tamanho da palavra e de semelhanças fonológicas entre as palavras, até a segmentação e manipulação de silabas e fonemas (Bryant & Bradley, 1985).

O processamento fonológico refere-se às operações mentais de processamento de informação baseadas na estrutura fonológica da linguagem oral. A consciência fonológica refere-se tanto à consciência de que a fala pode ser segmentada quanto à habilidade de manipular tais segmentos, que se desenvolve gradualmente à medida que a criança vai tomando consciência de palavras, sílabas e fonemas, ou seja, do sistema sonoro da língua como unidades identificáveis (Capovilla & Capovilla, 2000b; Supple, 1986). Desta forma, parece que a consciência de segmentos suprafonêmicos desenvolve-se de modo espontâneo, ao contrario da consciência fonêmica que necessita da introdução formal no sistema alfabético (Morais, 1979). A precedência da consciência suprafonêmica em relação à consciência fonêmica é devida ao fato de que sílabas isoladas são manifestadas como unidades discretas da fala, enquanto que fonemas, não.

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Morais, Bertelson, Cary e Alegria (1986) e Read, Yun-Fei, Hong-Yin e Bao-Qing (1986) demonstraram a fundamental importância das regras da escrita alfabética como base para o desenvolvimento da habilidade de segmentação. Por exemplo há estudos sobre a relação da baixa consciência fonológica e a escrita logográfica[1] e silábica. Estes estudos demonstram que pessoas da China que aprendem somente a escrita logográfica e pessoas do Japão que aprendem a escrita logográfica juntamente com a silábica, têm freqüentemente uma pobre detecção e manipulação de fonemas nas palavras (Read, Zhang, Nie e Ding, 1986; Mann, 1986)

Segundo Capovilla & Capovilla (2000b), a consciência fonológica é um tipo de consciência metalinguística. Consciência metalinguística seria a habilidade de desempenhar operações mentais sobre o que é produzido por mecanismos mentais envolvidos na compreensão de sentenças.

O desenvolvimento da consciência fonológica pode estar relacionado ao próprio desenvolvimento simbólico da criança, no sentido dela vir a atentar para o aspecto sonoro das palavras (significante) em detrimento do seu aspecto semântico (significado) (Ferreiro & Teberosky, 1986). Alguns estudos têm demonstrado que existe um longo caminho a percorrer até que a criança perceba que a escrita não representa diretamente os significados, mas sim os significantes verbais a eles associados (ibidem). E mesmo quando ela descobre essa relação entre escrita e fala, ainda há todo um processo de elaboração cognitiva no sentido de compreender como se dá essa relação, a saber, através da correspondência grafema-fonema (ibidem). Segundo Carraher e Rego (1984), a base cognitiva necessária para que uma criança possa perceber as palavras enquanto sequências de sons a serem transformadas em grafemas, estaria na superação do realismo nominal. O realismo nominal refere-se à confusão estabelecida pela criança entre significantes e significados, com tendência a atribuir às palavras características do que elas representam (Piaget, 1926) como, por exemplo, a palavra elefante teria que ser tão grande quanto e formiguinha tão pequena quanto o animal.

Segundo Morais (1995), seriam necessárias instruções expressas sobre o mapeamento da escrita alfabética, no intuito de familiarizar a criança com o mapeamento dos sons da fala. Vale ressaltar que as instruções para o desenvolvimento da habilidade de manipular os sons da fala (instruções metafonológicas) bem com as instruções para desenvolver a habilidade de converter esses sons em escrita, e vice-versa (instruções fônicas) devem ser realizadas de modo a tornar explícito à criança estas correspondências (Capovilla & Capovilla, 2003).

De acordo Lundeberg, Frost & Petresen (1988) muitas crianças pré-escolares apresentam carência nas habilidades de manipular conscientemente unidades linguísticas requeridas em tarefas de segmentar, comparar, contar ou excluir tais unidades, principalmente na manipulação fonêmica. Contudo, muito precocemente as crianças são capazes de isolar e detectar unidades maiores, como sílabas, e reconhecem rimas (Knafle, 1974; Lenel & Cantor, 1981; MacLean, Bryant & Brandley, 1987).

O desenvolvimento da habilidade de rimar não parece depender fortemente do treinamento formal, por requerer menos consciência e manipulação intencional de segmentos (Lundeberg, Frost & Petresen, 1988). Comparado com fonemas, sílabas são unidades mais acessíveis e mais fáceis de serem isoladas, mais salientes e menos abstratas (idem).

Assim, espera-se que crianças pequenas apresentem consciência de silabas, aliterações e rimas e mais dificilmente apresentem consciência de fonemas (Bertelson & De Gelder, 1989; Blischak, 1994).

Referências:

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[1] reconhecimento das palavras por meio de esquemas idiossincráticos