Piscar de Olhos: confissões de uma mãe do fundão

Postado em 1 dez, 2012 - Dicas Gestantes, Dicas Mamães

Começo com a indicação do blog Piscar de Olhos: confissões de uma mãe do fundão, escrito pela Roberta, mãe do Noah e da Luna. O blog, segundo a Roberta “é dedicado a todas as mães que, como eu, foram presenteadas com criaturas tamanho PP, que choram sem motivo, regurgitam na sua blusa nova, produzem cocôs explosivos, fazem birra no supermercado e não deixam você dormir direito NUNCA MAIS nessa vida de meu deus. Mães exaustas, culpadas, cheias de dúvidas ou à beira de um ataque de nervos, mas que não trocariam esse perrengue todo por NADA nesse mundo.”

E fazendo minhas as palavras da Ana Thereza Caiado Franciosi da BrownSugarBear:

“Ai jesus, me diverti como não me divertia em blogs faz tempo! Para mamães, gestantes e curiosas de plantão, o mais hilário relato de parto ever!”


Segue o texto da Roberta sobre o parto de sua filha Luna:


Notas pré-relato:

- Noah nasceu de um cesariana a qual, sinto dizer, não me é uma ferida aberta. Tenho cá pra mim que existem dois motivos para isso:
1. EU pedi para ser induzida quando estava com 41 semanas e 3 dias. Meu médico teria esperado, tranquilo e feliz, até 42 semanas. Essa indução pedida por MIM acabou por ocasionar um cesariana. Meu médico não faz parte do grupo dos mentecaptos e foi escolhido a dedo por ser um dos poucos “parteiros” do Rio de Janeiro. E, sim, eu já me perdoei pela minha escolha (e faz tempo).
2. Tive a sorte e a sabedoria de ter escolhido como pediatra Dr Ricardo Chaves, este anjo que vocês podem ver aqui. Noah mamou na primeira hora de vida e ficou do meu lado o tempo inteiro, o que acabou por minimizar qualquer perrengue que tenha sofrido.
- Na segunda gravidez eu aprendi a lidar com a minha ansiedade e quis parir pela vagina (ui!). Consegui um VBAC – Vaginal Birth After C-Section. Consegui porque fui atrás de um médico que não acreditava que “uma vez cesárea, sempre cesárea”.  Não são todos, ainda mais no Brasil.  Não me saio bem como militante mas tenho um punhado de informações que podem ser úteis pra quem quer um VBAC pra chamar de seu. Deixe seu email, ficarei super feliz em ajudar. Luna nasceu de parto normal sem anestesia (foi a anestesia que não me quis e não vice-versa), em posição posterior, sem episio.
- Toda essa dor a que me refiro a seguir se deve ao fato de que Luna estava em uma posição que, geralmente, causa partos bastante doloridos. PLUS minha anestesia não pegou. Não quero ser acusada de desencorajar quem esteja buscando um parto normal, era o que me faltava. Além do que, dor é um lance pessoal e intransferível: diz Gisele Bundchen que não sentiu dor alguma (e ainda por cima é magra, a rapariga…há justiça?)
- Respeito demais os relatos, o sofrimento e todos os nós deixados nas gargantas de mulheres que se sentiram e se sentem enganadas e violentadas em seus partos. Não deixem de assistir a este documentário sobre a Violência Obstétrica no Brasil.
- Eu ainda acredito que parto deva ser uma escolha da mulher. Escolha esta precedida de informação de qualidade, sempre. Senão não é escolha.
- Como escrevi na página do Piscar no Facebook “Eu queria um relato sério, classudo, todo trabalhado no respeito para com a instituição P.A.R.T.O. Mas a coisa foi degringolando, foi arobertando, foi entortando tanto que, no final, parecia que quem tinha parido era Didi Moco.”
“Respeito muito minhas lágrimas
Mas ainda mais minha risada
Inscrevo, assim, minhas palavras
Na voz de uma mulher sagrada”
Vaca Profana, Caetano
***
Este post contém palavrões. Muitos.
***
Minha mãe tem uma lista com as 17 coisas que ela gostaria de fazer antes de morrer.
Não são quinze nem vinte, são dezessete.
A lista é bastante oportunista, posto que muda de acordo com a conveniência da listadora. Por exemplo: eu não lembro de ter visto ou ouvido que nessa lista constasse “ir a uma corrida de fórmula I”.
No entanto, assim que chegou em Singapura e soube que a corrida estava pra acontecer aqui, minha mãe já foi logo dizendo:
-Precisamos ir.
-Mas mãe…
- Precisamos ir. Desculpa, filha, tá na minha lista.
Eu não tenho uma lista propriamente dita, mas existem coisas que eu adoraria fazer antes de passar desta pra uma melhor:
Voar de asa delta.
Aprender a tocar violão.
Estudar mitologia grega.
Dar um tapa na cara de Paulo Maluf.
Ter um parto normal.
***
Para se ter um parto vaginal depois de uma cesariana (o tal do VBAC) você precisa, antes de tudo, encontrar um médico que ache isso possível, correto? Porque nem todos estão a fim de fazer.
Busca aqui, busca ali e eu encontrei Dr Lai.
Já na primeira consulta cheguei a duas conclusões:
- Se havia alguém que acreditava no meu VBAC essa pessoa era ele.
-Em circunstâncias normais de temperatura e pressão eu NUNCA o teria escolhido para trazer filho meu ao mundo.
Explico.
Dr. Lai reunia algumas características que, apesar de nada graves e até bastante superficiais, conseguem me irritar de maneira quase insuportável. Citarei três delas:
- Dr Lai possuía apenas UMA expressão facial, da qual se valia no início, no meio e no final da consulta. Uma expressão um bocado morna e genérica, difícil dizer se aquele troço era alegria ou tristeza. Também era impossível identificar se o homem tinha 50 ou 150 anos, já que os orifícios de seu rosto não me pareciam terreno fértil para rugas de expressão, as quais, como o próprio nome sugere, precisam de expressão para brotar, procriar, ser feliz. Não há ruga que sobreviva naquele deserto. Não eram raras as consultas em que eu não conseguia prestar atenção em uma palavra que o sujeito dizia, só imaginando o quanto devia ser difícil pra esposa dele. Você casar com um homem que vive sempre com a mesma cara? Na sacanagem e no velório? Aquilo é vida?
- Dr Lai tinha aperto de mão flácido. E deve haver pouca coisa no mundo que me irrite mais do que um aperto de mão flácido, daqueles em que a pessoa estaciona a própria mão na sua, empregando ZERO força ao ato apertatório. Você estica a mão com vontade e recebe aquela coisa mole e deslizante. Sempre me intrigou isso dessa gente  que possui aperto de mão mole. Céus, o que leva uma pessoa a estabelecer para si este modelo de aperto brochado, desanimado?! Preguiça? Anemia? Egoísmo?
- Dr Lai era um pisador de calcanhar compulsivo. O pisador de calcanhar é aquele sujeito que não consegue medir a distância dos próprios passos e sempre acaba por pisar-lhe o calcanhar. O pisador parece não dominar noções básicas de distanciamento, medida e compasso. Imagine que a humanidade caminhe em uma certa velocidade e ritmo. Os pisadores de calcanhar não acompanham esse jazz humanitário, eles são seguidores de sua própria melodia. Pisadores te machucam o calcanhar e, não raro, arrebentam a tira da sua sandália. Eu sei porque sou casada com um deles (quando descobri já era tarde).
***
Mas Dr Lai acreditava não só que eu conseguiria um parto vaginal como ele ainda apostava na coisa da pessoa parir sem anestesia.
Sim, Dr Lai era um entusiasta do parto sem anestesia. Era entusiasta, mas lhe faltava entusiasmo o suficiente para me convencer, judiação.
- Me dê um bom motivo para que eu abrace a ideia de um parto sem anestesia? – eu perguntava.
- Porque é melhor, ele dizia.
E me olhava com a mesmíssima expressão facial de quem arruma uma gaveta de meias.
***
Na consulta de 40 semanas eu já estava tão acostumada com o jeitão monoexpressivo dele que já ia pro consultório do homem lixando as unhas.
Na hora da ultrassonografia  porém, algo muito louco aconteceu e, por um minuto, eu vi um comecinho de uma expressão diferente se formar. E aquilo me parecia preocupação.
- O que foi Dr?
- Hum…
- Fala, ômi!
- Ela virou, a bebê virou. Está em OPP.
- Tá em que, meu filho?
- Em posição posterior. Bebês nascem olhando para baixo, certo? Pois ela virou e está olhando para cima.
- Ai, caceta, alegria de pobre dura pouco. E agora? Faca?
- Não, não tem problema nenhum. Faremos o parto normal, mas agora eu lhe sugiro…
- Sugere a faca?
- Sugiro que tome anestesia. Porque existe uma grande possibilidade de que este seja um parto longo e bastante dolorido.
***
Ou seja, a vida me testando, né?
Pra Dr Lai me indicar anestesia, minha gente, era que a coisa ia ser dolorida.
Duas horas com Tio Google e eu já estava chorando e pedindo perdão a deus por um dia ter enganado minha prima dizendo que aquele papel de carta tinha vindo do Japão. Deus há de estar me punindo severamente pelo meu passado!
Os resultados do Google para a tal da OPP – posição posterior – não eram lá muito animadores.
Tudo na base do  “Como encontrei Jesus depois de meu OPP”
E foi no Google que encontrei também o site de uma médica americana que sugeria algumas técnicas que fariam o bebê desvirar. Uma delas incluía boiar na piscina de barriga pra baixo.
Ou seja, boiar ao contrário, de bunda pra cima.
Visualize.
Agora acrescente vinte quilos e terás a visão turva do inferno.
Teve um dia em que, mesmo boiando e com a cara dentro d’água, eu consegui ouvir minha mãe, meu filho e meu marido RINDO e proseando “ela parece um verdadeiro hipopótamo!”.
Isso vindo de gente que me tem apreço, imaginem o que pensavam os outros.
***
Eu já estava com 41 semanas e o saco na lua quando resolvi tirar um cochilo depois do almoço.
Deito, ouço um PLOC.
Pra se ter uma ideia do quão lesada eu já estava nesse estágio, atentem para o pensamento que me veio à cabeça:
- Nossa, a bebéia bateu a cabeça na minha pélvis. Que louco, meo!
Cinco minutos transcorreram até que eu fosse ao banheiro. Sentei pra fazer xixi, fiz, fiz, fiz, e o xixi nunca terminava.
Mais um pensamento brilhante :
- Caraca, incontinência urinária braba.
Obviamente aquilo não era xixi, era a tal da água da bolsa. E o ploc nada mais era que a bolsa estourando.
(Agora, a pessoa lê tanto blog materno e não me sabe que a bolsa faz PLOC quando estoura? Tem cabimento isso?)
Digo, Manhê! Minha bolsa estourou!
Call me cafona, mas eu achei fantástico isso da bolsa estourar.
Liga pro consultório, que cor está a água?
- Eu digo verde.
- Que tom de verde?
- hum…
Verifico a cor da água e confirmo:
- Mecônio. 50 tons de mecônio.
Digo danou-se, lá vou eu pra faca.
- Não tem problema, vá pro hospital. Mecônio não justifica uma cesárea. Nós vamos monitorar o bebê e, enquanto os batimentos cardíacos estiverem ok, não há razão alguma para a cirurgia.
Disse isso e desligou, com toda aquela paixão que lhe é peculiar.
***
Os hospitais em Singapura têm pinta de hotel cinco estrelas.
Chega na recepção é aquela gente toda sorrindo, cas conta-tudo-paga.
“Welcome, Ms Ferec. I hope you will enjoy your stay with us”
Oi?
Por isso me deu foi pena quando meu aguaceiro verde tomou conta daquela recepção tão bem cuidada. Fiquei com tanta vergonha que a minha vontade era roubar o pano de chão da tiazinha e dar um tapa naquela bagunça – pobre não pode ver um kleenex dando sopa.
Chegando no quarto tudo estava como eu havia solicitado no meu plano de parto, entregue duas semanas antes pra enfermeira chefe. Luz baixa, bola de pilates, flores, velas, George Clooney – aquilo tudo que deixa um quarto de hospital um bocado mais charmoso.
Eu sou uma pessoa simpática, gente. Chego perto do ridículo, perguntem a quem tem o desprazer de me conhecer pessoalmente. Pois naquele dia eu ainda estava mais tagarela, cumprimentava todo mundo, abraçava enfermeira, conversava sobre a situação obstétrica brasileira, são todos crápulas, bla bla bla.
Mas toda aquela simpatia estava com os minutos contados (não mudem de canal).
***
Sentar naquela bola estava me fazendo bem até então. Andar pra lá e pra cá acenando pras pessoas, feito miss oktoberfest, também.
A dor era ainda bastante tolerável. Até cheguei a comentar com uma enfermeira que o povo era fresco demais com esse negócio de dor, não?
Ela riu uma risada crescente, daquelas que viram gargalhada de bruxa. E saiu do quarto.
Dali em diante foi ladeira abaixo. Dor, dor, dor.
Digo, amor, chama o pessoal das drogas, por favor.
(Naquele momento eu ainda dizia por favor às pessoas).
Anestesista chegou e me deu a dolorosa na espinha. Eu não vou mentir pra vocês: tive uma impressão ruim da moça, mas achei que fosse coisa da minha cabeça. Mas nunca é, certo?
Passados alguns minutos da anestesia a constatação: Eu não conseguia sentir minhas pernas mas a dor das contrações persistiam, quer cenário mais ingrato?
- Enfermeira? Tem alguma coisa errada aqui, minha flor (menos simpatia, mais sarcasmo).
E expliquei. E pedi que ela tirasse aquele troço imediatamente, que eu gostava das minhas pernas e precisava delas para parir.
Passado algum tempo todo o efeito da anestesia foi embora, a enfermeira foi embora, a anestesista vaca foi embora e a dor, minha gente.
Ah, a dor.
Creio que o primeiro estágio da dor verdadeiramente intensa pode ser identificado por sons baixos e gemidos.
O segundo por gritos.
O terceiro por visões e alucinações. E era nesse estágio que eu estava naquele momento:
Eu vi Cristo ser crucificado.
Vi o amor nascer e ser assassinado.
Eu vi as bruxas pegando fogo pra pagarem seus pecados.
De uma Roberta pimpona e simpática passamos para Roberta versão exorcista de tpm.
 

Saiam todos daqui! Só me deixem George Clooney!
-Enfermeira! Enfermeira! Cadê a porra da enfermeira?
-Cadê a vaca da anestesista! Tragam as drogas, tragam agora!
-Diga ao viado do meu marido que me consiga uma anestesia já! Eu exijo!
(Eu sei, minha sogra, seu filho é um santo.)
-Roberta, nós já pedimos que ela voltasse, não sei porque está demorando tanto, dizia a enfermeira.
-Está demorando tanto porque não tem pai nem mãe, aquela vadia.
-Chame outro anestesista, então!
-Não estamos conseguindo, Roberta, tente se acalmar.
-Pois gastem menos dinheiro naquele cacete daquela recepção e esta merda de papel de parede e invistam mais em anestesistas! Por Deus, vocês não têm coração??
Volta a anestesista. Me fura novamente e eu AINDA sinto toda a dor.
TODA. A. DOR.
E é aí que eu começo o meu discurso de adoração aos anestesistas brasileiros, no melhor estilo Temos a Amazônia! Temos as Cataratas do Iguaçu! E temos os melhores anestesistas do mundo!
A dor era tanta que comecei a chamar cesarista de meu nêgo. O médico cesarista, outrora crápula, virou um cara bacana, um sujeito sangue bom, um cara cheio de suingue.
***
22 horas mais tarde e 10 centímetros de dilatação depois eu já me encontrava no quarto estágio da dor.
Aquilo já me parecia um outro lugar, um outro mundo.
Um estágio meio lança perfume, uma coisa “se eu quiser falar com deus”.
A voz do marido estava distante e eu só consegui ler os lábios da enfermeira me dizendo “Dr Lai chegou”.
Ele já havia passado pra me ver duas vezes, mas acho que foi tão esculachado que nem quis ficar pro cafezinho.
Na primeira de suas visitas eu gritei pra ele me tirar dali, que meu útero estava se rompendo, certeza! Não era possível uma dor teúda e manteúda daquelas!
Ele me explicou, com a mesma placidez de quem tá morto, que os batimentos cardíacos de Luna estavam espetaculares e que aquilo significava que ela estava bem, muitíssimo bem.
Escutei aquilo tudo e fui invadida por uma incrível vontade de chorar. Sei lá, gratidão misturada com uma vontade quase incontrolável de acertar-lhe as fuças inexpressivas.
- Roberta, por favor, não chore. Você vai precisar dessa energia.
E eu precisei mesmo. Que pra trazer ser humano pro mundo precisa de força, viu?
Quando vi a cabeça da bichinha me emocionei. Daqueles momentos na vida onde a tendência é a pessoa pensar coisa bonita, sabe?  No entanto tudo que eu conseguia pensar era:
1. ela vai nascer ouvindo Clocks, do Cold Play.
2. deus, que cabeção.
3. putz, tem muito mais bebê dentro do que fora.

Dr Lai me interrompeu os pensamentos.
- Roberta, respira fundo e vamos trazer Luna. Ela está pronta e precisa de você.
E foi nessa hora que a força gigantesca veio e eu nem sei bem de onde.
Só sei que eu senti cada centímetro da minha filha chegando ao mundo, ao som de Clocks.
Saiu de mim e voltou pra mim, acho que nem percebeu que não era mais eu.
Senti o calor fortíssimo do corpo dela e desabei num choro que durou a vida inteira.
 
Dizem que antes da morte a gente vê a vida inteira passar feito um filme.
Pois eu vi esse mesmo filme, só que antes da vida.
Vi Luna no aniversário de 1 ano, Luna correndo e tomando seu primeiro banho de mar. Vi Luna na escola, eu a vi menstruando e chorando por terminar com o namorado.
Vi Luna abraçando o irmão em um natal qualquer e vi os dois rindo juntos, no porta retrato da mesa da sala.
E o meu choro virou compulsivo, alto, libertador.
Daqueles momentos na vida onde a tendência é a pessoa dizer coisa bonita?
Mas em vez disso me sai um:
- Bingo! Agora é voar de asa delta e dar um tabefe na cara do Maluf.
(juro por deus, tá em vídeo)”