Enxaqueca na gravidez

Postado em 26 jun, 2013 - Dicas Gestantes

Para a maioria de nós, a enxaqueca é apenas uma forte dor de cabeça que acomete periodicamente certas pessoas. Para Oliver Sacks, ela é muito mais do que isso. É, antes de mais nada, um conjunto complexo e diversificado de síndromes nas quais a dor de cabeça nem sempre está presente. Além disso, a enxaqueca pode nos fornecer pistas sobre algumas questões mais fundamentais do ser humano.

Enxaqueca na gravidezExistem mais de 200 tipos de cefaleia, ou dor de cabeça. A enxaqueca é um deles. Ela é herdada geneticamente e se manifesta por episódios repetidos de dor de cabeça, acompanhada por outros sintomas, como náusea, vômitos e intolerância à luz (fotofobia), aos ruídos (fonofobia) e aos odores (osmofobia).

As principais características da enxaqueca, como seus fenômenos e como eles são sentidos pelo paciente, seu modo de ocorrência, os fatores que podem provoca-la, as maneiras gerais de conviver com ela ou combate-la, não mudou em nada de 2 mil anos atrás até hoje. Contudo, foi apenas em 1970 na City de Londres que foram tomadas providências para que uma clínica de tratamento de enxaqueca fosse instalada.

As enxaquecas são as cefaléias que mais levam os pacientes a procurar ajuda médica. Embora não sejam os tipos mais comuns de cefaléia, acometem 18% a 20% de todas as mulheres, 6% dos homens e de 4% a 8% das crianças em idade escolar, e seus episódios são frequentemente severos e incapacitantes. Caracterizadas por mecanismos fisiopatológicos complexos e ainda pouco conhecidos, as enxaquecas parecem ser cefaléias primárias de causa genética, que se manifestam em crises intermitentes de dor de cabeça com aspectos peculiares, sinais e sintomas associados e frequência bastante variável.

Diversas síndromes podem ser reconhecidas no complexo da enxaqueca, podendo sobrepor-se, fundir-se e metamorfosear-se umas nas outras. A que ocorre com maior frequência é a enxaqueca comum, na qual se encontra uma variedade de sintomas de enxaqueca agrupados em torno d sintoma principal, a dor de cabeça.

De acordo com o CID 10 há sete códigos para a classificação da Enxaqueca:

  • G43: Enxaqueca
  • G43.0: Enxaqueca sem aura (enxaqueca comum): Cefaleia recorrente manifestando-se em crises que duram 4 a 72 horas. As características típicas da cefaleia são: localização unilateral; carácter pulsátil; intensidade moderada ou severa, exacerbação por atividade física rotineira e associação com náusea e/ou fotofobia e fonofobia.
  • G43.1: Enxaqueca com aura (enxaqueca clássica): A enxaqueca com aura é um tipo de enxaqueca que possui as mesmas caraterísticas da enxaqueca comum, mas que também gera sintomas relacionados ao sistema nervoso central, como distúrbios visuais, que normalmente surgem cerca de 5 a 20 minutos antes de se instalar a dor de cabeça e afeta entre 10 a 15% das pessoas que têm enxaqueca possuem manifestações de aura. A aura da enxaqueca envolve sintomas relacionados a distúrbios visuais (luzes piscando, manchas brilhantes, visão borrada ou manchas cegas), auditivos (ruído no ouvido), sensitivos ou motores tais como, formigueiros nas extremidades dos pés ou mãos; paralisia do movimento ocular; formigamento na cabeça, lábios, língua ou braços; dificuldade em falar; alucinações (ex: sensação de estar caindo, ou de os objetos serem maiores ou menores que na realidade, etc.); tontura ou perda do equilíbrio.
  • G43.2: Estado de mal enxaquecoso
  • G43.3: Enxaqueca complicada
  • G43.8: Outras formas de enxaqueca
  • G43.9: Enxaqueca, sem especificação

A enxaqueca é uma das entidades na qual os fatores familiares e adquiridos predispõem os pacientes às crises, havendo uma grande variedade de eventos internos e externos que parecem provocar as crises. Parecendo que os ritmos cíclicos determinados pelos mecanismos cronobiológicos do hipotálamo um fator-chave específico que determina a vulnerabilidade das crises de enxaqueca. Os fatores que provavelmente induzem ou provocam a enxaqueca são os seguintes: alimentos, fatores emocionais, fatores climáticos e alterações hormonais.

A abordagem mais eficaz para tratamento da enxaqueca, além do afastamento dos fatores que deflagram as crises, é o uso de substâncias originariamente prescritas para outras patologias. Como exemplo, os betabloqueadores e os antidepressivos tricíclicos que, como outras classes de substâncias, devem ser tomados em caráter diário e regular, com o objetivo de prevenir as crises e obter uma diminuição da frequência, intensidade e duração da dor, reduzindo assim o sofrimento destes pacientes comumente submetidos a verdadeiras maratonas de conduta duvidosa e ineficiente

Enxaqueca na gestação

A história natural da enxaqueca na gravidez é favorável, geralmente a dor de cabeça melhora nos segundo e terceiro trimestres, porém no primeiro trimestre ela pode atrapalhar a vida da gestante. Normalmente são as mulheres com enxaquecas na menstruação, as enxaquecas menstruais, que melhoram na gestação.

Durante a gravidez, a frequência da enxaqueca tende a diminui na maioria das mulheres, com um aumento da sua remissão a partir da primeira para a terceira trimestre. Uma das explicações para esses resultados é o aumento dos níveis de estrogênio no primeiro trimestre e uma tendência a estabilidade durante o segundo e terceiro trimestres de gestação.

Em estudo realizado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) no qual foram analisadas 1.101 gestantes com e sem dor de cabeça, o resultado demostrou que 63% das que tinham enxaquecas preexistentes (de um total de 993) melhoraram do quadro de dor principalmente nos últimos três meses de gestação, devido aos níveis hormonais.

O curso de enxaqueca nas mulheres está associada à níveis de estrogênio, e a frequência das crises de enxaqueca tende a diminuir durante os períodos de seu aumento ou estabilidade. Os altos níveis de estrógeno na gestação, sem oscilações, afetam a prevalência de enxaqueca na maioria das mulheres, mesmo naqueles sem história de enxaqueca menstrual pura ou menstruação relacionada à enxaqueca. Sabe-se que o corpo lúteo mantém a secreção de estrogénio e progesterona até a 10 e 12 semanas de gestação. Mais tarde, é a placenta que assume estas secreções que continuam a aumentar durante a gestação, embora tendam a estabilizar entre os segundo e terceiro trimestre da gravidez.

Depois que o bebê nasce, no entanto, a tendência é a de que tudo volte como antes, já que após o parto, o nível de estrogênio cai muito e as crises podem voltar iguais ao que eram, com menos intensidade ou piora.

De acordo com diz Eliana Meire Melhado, neurologista e membro da Sociedade Brasileira de Cefaleia: “O estrogênio em níveis baixos pode favorecer o aparecimento da dor de cabeça. E nessa fase da gravidez ele está aumentado, o que garante a ‘proteção’”.

O ideal é que a mulher que já tem enxaqueca e pretende engravidar faça um tratamento preventivo, para cessar com a medicação antes de esperar o bebê. Porém, se isso não for possível, ou ainda que o problema apareça na gestação, é fundamental investigar e tratar. E existem tratamentos para enxaqueca na gravidez e quando a mulher com enxaqueca planeja sua gestação, o tratamento da enxaqueca pode ser planejado também para que seja estabilizado e modificado o tratamento de acordo com a possibilidade de se dar continuidade no tratamento durante a gravidez.

Entretanto é preciso muita atenção na hora de medicar uma gestante com enxaqueca, já que muitas drogas normalmente utilizadas para o alívio dos sintomas podem trazer riscos tanto à mãe quanto ao feto. É importantí­ssimo procurar um médico que lhe indique a medicação mais adequada à crise, visando não prejudicar a saúde da mãe e do feto.

Por isso: CUIDADO! NÃO SE AUTOMEDIQUE!

Segundo ainda Eliana Meire Melhado, existem remédios seguros para serem usados na gravidez. Mas só em quadros mais graves, em que a mulher se sente muito mal e tem náuseas, vômitos, que pode levar à desidratação e prejudicar o bebê. E sempre com orientação do especialista.

10609_gPara finalizar deixo a indicação do livro do Oliver Sacks: Enxaqueca

Fontes de pesquisa:

Andrade, C., ANDRADE JÚNIOR, F. (2011) Princípios de avaliação das cefaleias. Revista da Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba. ISSN (impresso) 1517-8242 (eletrônico) 1984-4840.

Costa, V. (1993). Enxaqueca. Rev. goiana med; 39(1/4):53-9.

Krymchantowwski, AV. (1998). Tratamento preventivo das migrâneas ou enxaquecas. J. bras. med;74(5):15-28.

Melhado, Eliana Meire (2005) Cefaleia na gestação. Tese de doutorado apresentada ao : Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas . Faculdade de Ciências Medicas

Sacks, Oliver. (1996). Enxaqueca. São Pauo: Companhia das Letras

Serva, Waldmiro Antônio Diégues et al .(2011) Comportamento da enxaqueca durante a gestação em mulheres portadoras de enxaqueca pré-gestacional. Arq. Neuro-Psiquiatr.,  São Paulo,  v. 69,  n. 4, Aug.