Desenvolvimento da linguagem na primeira infância

Postado em 6 mar, 2014 - Dicas Gestantes, Dicas Mamães, Psicologia

linguagem+oralA compreensão e a expressão são dois principais componentes da linguagem oral, sendo formada por um sistema finito de princípios e regras que possibilitam a um falante codificar significado em sons e a um ouvinte decodificar sons em significado.

Assim, a linguagem oral envolve dois processos:
a)     o de codificação: no qual um falante converte a ideia que está em sua mente em uma cadeia de sons;
b)     o de decodificação: em que um ouvinte decodifica o sinal recebido, os sons, transformando-o novamente em ideia.
A compreensão da linguagem ocorre primeiro, ou seja, a criança ainda não fala, mas já pode compreender. A expressão da linguagem pode se dar de várias formas: fala, gestos, digitação, sinais e linguagem corporal.
O desenvolvimento da linguagem oral está intimamente ligado à maturação cerebral, ao meio ambiente sociofamiliar, considerando a estimulação recebida pelo indivíduo, e à integridade sensorial, especialmente a auditiva, visto que o indivíduo modula seus desempenhos fonéticos e fonológicos a partir de percepções audioverbais provenientes das pessoas com quem convive.
Podendo, o desenvolvimento da linguagem oral ser influenciado por diversas características, que incluem habilidades intelectuais, habilidades acadêmicas, bem-estar emocional e situação ambiental.
Alguns pré-requisitos biológicos, psicológicos e ambientais são essenciais para a aquisição da linguagem. Os pré-requisitos biológicos referem-se a funções sensoriais, perceptuais, motoras e cognitivas adequadas – destacando a audição preservada e a capacidade de discriminação de sons e fonemas.
Dentre os pré-requisitos ambientais, sabe-se que a aquisição da linguagem está intimamente relacionada à convivência com modelos de linguagem adequados. O desenvolvimento de relacionamentos interpessoais, a relação do bebê estabelecida de forma adequada, são os pré-requisitos psicológicos mais citados.
É necessário que os indivíduos falantes e ouvintes conheçam as regras de combinação de sons em palavras e das palavras em frases, que utilizem tanto a estrutura gramatical das frases como os sentidos das palavras para transmitir e compreender o conteúdo da mensagem, bem como que reconheçam e usem regras do discurso social para o uso da linguagem de maneira apropriada para a comunicação.
Componentes da linguagem
Componente
Definição
Termo comum
Fonologia
Regras para o uso dos fonemas
Sons da fala
Morfologia
Regras para combinação dos fonemas
Palavras
Sintaxe
Regras para combinação dos morfemas
Ordem das palavras
Semântica
Relação de símbolos com os objetos e eventos
Significado
Pragmática
Regras para uso da linguagem em um contexto
Objetivo
Prosódia
Impacto da inflexão, acentuação, duração juntura
Melodia da fala
Marcas importantes do desenvolvimento da linguagem
Idade (anos)
Fonologia
Semântica
Morfologia/Sintaxe
Uso pragmático da linguagem
Percepção metalinguística
0 a 1
Receptividade à fala e discriminação de sons do discurso
O balbucio começa a se assemelhar aos sons da língua nativa
Algumas interpretações de pistas entonacionais da fala de outros.
Aparecem os gestos pré-verbais
Aparecem os vocábulos.
Pouca, se alguma, compreensão de palavras separadas
Preferência por padrões, estrutura frasal e ênfase na língua nativa.
Atenção conjunta com o cuidador para objetos e eventos.
Jogos de fala um de cada vez e vocalizações.
Início dos gestos pré-verbais
Nenhuma
1 a 2
Surgem estratégias para simplificar a pronúncia de palavras
Aparece a primeira palavra
Rápida expansão do vocabulário após os 18 meses
Superextensão e sbextensão do significado das palavras.
As holófrases são substituídas pela fala telegráfica de duas palavras.
As sentenças expressam diferentes relações semânticas.
Aquisição de alguns morfemas gramaticais.
Uso de gestos e pistas entonacionais para clarificar mensagens.
Entendimento mais enriquecido sobre as regras da fala um de cada vez.
Primeiros sinais de etiqueta na fala da criança.
Nenhuma
3 a 5
Melhora a pronúncia
Expansão de vocabulário.
Entendimento de relações espaciais e uso de palavras espaciais na fala
Morfemas gramaticais adicionais em uma sequência regular.
Percepção de quase todas as regras da gramática transformacional
Início da compreensão da intenção ilocucionária.
Alguns ajustes na fala para diferentes públicos.
Algumas tentativas para esclarecer mensagens claramente ambíguas.
Alguma percepção fonética e gramatical
Fonte: Shaffer e Kipp (2012)
Entre os 12 e os 24 meses de vida, a criança evolui muito em relação à linguagem. A linguagem compreensiva, em geral, evolui mais rapidamente do que a expressiva. Aos 12 meses a criança fala cerca de 3 a 5 palavras, sendo normalmente nomes de pessoas da família, de seus brinquedos favoritos e de partes de seu corpo; entre 10 e 18 meses (período conhecido como “de nomear objetos”) além de dar nome aos objetos, a criança compreende quase tudo que você fala, neste período, observa-se grande avanço na linguagem, a criança reconhece o seu próprio nome e o significado da palavra não, passa também a combinar palavras com gestos, que passam a ter valor de frase. A criança entre 18 e 24 meses possui um vocabulário de cerca de 50 palavras. Neste período, passa a combinar diferentes palavras, tornando-se capaz de construir frases simples, e um adulto que não seja próximo à criança entende 50% do que ela fala.
Em estudo realizado por Capovilla e colaboradores (2007), para avaliar o vocabulário expressivo (correspondente ao léxico que pode ser emitido pela criança) e avaliado pelo número de palavras que a criança é capaz de pronunciar utilizando Teste de Nomeação de Figuras. O teste consiste de 124 itens com desenhos de linha com diferentes graus de familiaridade, composto por um caderno de aplicação com uma figura por folha e uma folha de respostas. O caderno é manuseado pelo aplicador que anota a resposta do participante na folha de respostas, permitindo a posterior correção. Neste estudo foi computado o total de acertos, sendo o máximo possível de 124 pontos.
Estatísticas descritivas do escore no Teste de Nomeação como função da faixa etária em anos.
Idade em anos
Número de crianças avaliadas
Média de figuras nomeadas
Desvio padrão
Mínimo
Máximo
3
42
54,3
20,0
22
102
4
40
63,7
16,0
23
110
5
40
79,7
18,6
48
116
Total
120
65,7
21,0
22
116
O que é importante observar:
1-               Os meninos podem desenvolver a linguagem mais lentamente que as meninas.
2-               Em caso de famílias bilíngues, as crianças podem misturar as palavras por um tempo, mas acabam desenvolvendo cada uma das línguas de forma adequada entre 2 e 3 anos de idade.
3-               Embora o período da primeira infância seja de grande desenvolvimento da linguagem, algumas crianças não falam muito, mesmo com audição e inteligência normais.
4-               O atraso na fala não é preocupante nessa faixa etária. Muito mais importante é verificar se existe compreensão, ou seja, se a criança atende às solicitações feitas, descartando-se assim, um problema mental ou auditivo.
O que os cuidadores não deve fazer
1-     Não ridicularizar os erros de linguagem da criança
2-     Não falar imitando os erros de linguagem da criança.
O que os cuidadores devem fazer
1-     Ensinar as palavras de forma clara, correta e com paciência, assim a pronúncia da criança irá melhorar gradativamente.
Referências:
BEE, H A (1996)Criança em Desenvolvimento. Porto Alegre: Artes Médicas.
Bühler KEB, Custódio Flabiano FC, Limongi SCO, Befi-Lopes DM (2008) Protocolo para Observação do Desenvolvimento Cognitivo e de Linguagem Expressiva (PODCLE). RevSocBras Fonoaudiol.;13(1):60-8.
CAPOVILLA, AGS et al. (2007) Teste de Nomeação de Figuras: evidências de precisão e validade em crianças pré-escolares. Psicol. pesq., Juiz de Fora, v. 1, n. 2, dez.
FLAVELL. JH. (1999)Desenvolvimento cognitivo. Porto Alegre: Artes Medicas
GESEL, AA (1998) Criança dos 5 aos 10 anos. São Paulo: Martins Fontes.
GESELL, AA. (1996) Criança dos 0 aos 5 anos. São Paulo: Martins Fontes.
Gil, R. (2002) Neuropsicologia. São Paulo, SP, Livraria Santos Editora Ltda
LOPEZ, F. A.; CAMPOS JR., D. Filhos da gravidez aos 2 anos de idade: um guia da Sociedade Brasileira de Pediatria – Barueri, SP: 2009
PAPALIA DE, OSW, Feldman RD. (2009) O Mundo da Criança: da infância à adolescência. Rio de Janeiro: Makron Books.
SHAFFER, DR; KIPP, K. (2012) Psicologia do desenvolvimento: infância e adolescência. São Paulo: Cengage Learning.