Criação com Apego e o desenvolvimento infantil

Postado em 7 out, 2013 - Dicas Gestantes, Dicas Mamães
Fonte: Google Imagens

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“A função biológica é definida de maneira mais restrita: trata-se daquela consequência que, no decorrer da evolução, levou o comportamento em questão a incorporar-se ao equipamento biológico da espécie” (Bowlby, 1984).

Anteriormente compartilhamos post falando como o afeto familiar determina as reações dos filhos diante do estresse, conflito e frustração.

O cérebro não nasce pronto. Além da genética, as experiências vivenciadas nos primeiros três anos de vida são determinantes – até mais do que os genes – para moldar o funcionamento cerebral diante de situações estressantes, desafiadoras e frustrantes.

Várias pesquisas científicas comprovam que o carinho, o toque e o contato são fatores importantes para moldar o funcionamento cerebral, o que torna a criança mais hábil e com o sistema de proteção orgânico mais forte.A ciência comprovou que a modificação de um comportamento muda, também, o cérebro causando assim, uma nova modificação do comportamento. Ou seja, a mudança de comportamento altera a estrutura cerebral e esta, por sua vez, esta muda seu comportamento, criando um círculo sem fim.

Desta forma, é fácil compreender, que a forma como se trata uma criança altera seu cérebro. E que esse cérebro promoverá comportamentos relacionados. O bebê nasce indefeso e o seu cérebro ainda não completou seu desenvolvimento, o que irá ocorrer somente por volta dos 21 anos. Com isso, o bebê é incapaz de ficar de pé ou mesmo buscar o próprio alimento e essa dependência exige um alto investimento por parte dos pais. Para que tudo ocorra da melhor forma possível, é preciso que se estabeleça um vínculo íntimo entre pais e bebê.

Durante a gestação e no processo de parto a mãe produz uma enorme quantidade de hormônios (oxitocina e prolactina) que propiciam a maternagem. Na década de 70 as observações realizadas por Boelby sobre “attachment” (apego) retomou o direito de o bebê ficar com a mãe após o parto e estabelecer o vínculo que é primordial para o desenvolvimento humano.

O apego é definido por Bee  como uma variação do vínculo afetivo, onde existe a necessidade da presença do outro e um acréscimo na sensação de segurança na presença deste. No apego o outro é visto como uma base segura, a partir da qual o indivíduo pode explorar o mundo e experimentar outras relações.

Bee, usa a relação pais e filhos para demonstrar a diferença entre apego e vínculo afetivo. O sentimento do bebê em relação a seus pais é um apego, na medida em que ele sente nos pais a base segura para explorar e conhecer o mundo à sua volta. O sentimento dos pais em relação ao filho é mais corretamente descrito por vínculo afetivo, já que os pais não experimentam um aumento em seu senso de segurança na presença do filho, e tampouco o filho tem para os pais a característica de base segura.

As mães mais “primitivas” não se preocupam com “independência”: carregam o filho junto ao corpo o tempo todo (…) O bebê necessita de assistência contínua e de contato para organizar e regular seus sistema interno (…) (Thelma B. Oliveira, 2012)

Quando John Bowlby estudou o vínculo entre mãe e filho, concluiu que essa ligação era parte de um sistema de comportamento que servia à proteção da espécie, já que os bebês humanos são indefesos e incapazes de sobreviver sozinhos por um longo período de tempo. Deste modo, o apego dos bebês às suas mães ou cuidadores é o que possibilitaria a sobrevivência da espécie. E o cuidado inadequado na primeira infância e o desconforto e a ansiedade de crianças pequenas relativos à separação dos cuidadores provocam efeitos adversos ao desenvolvimento, atribuídos ao rompimento na interação com a figura materna, na primeira infância.

Esses estudos iniciais de Bowlby, além dos trabalhos de outros pesquisadores que o influenciaram, deram origem às primeiras formulações e aos pressupostos formais da Teoria do Apego (TA). Os conceitos de Bowlby foram construídos com base nos campos da psicanálise, biologia evolucionária, etologia, psicologia do desenvolvimento, ciências cognitivas e teoria dos sistemas de controle, e buscou alternativas embasadas cientificamente para se defender dos reducionismos teóricos, dando ênfase aos mecanismos de adaptação ao mundo real, assim como às competências humanas e à ação do indivíduo em seu ambiente. Sendo assim, pode-se dizer que a  Teoria do Apego afirma que a criança tem uma tendência a buscar proximidade com uma pessoa e se sentir segura quando essa pessoa está presente.

Bowlby considerou portanto, o apego como um mecanismo básico dos seres humanos. Ou seja, é um comportamento biologicamente programado, como o mecanismo de alimentação e da sexualidade, e é considerado como um sistema de controle homeostático, que funciona dentro de um contexto de outros sistemas de controle comportamentais.

O papel do apego na vida dos seres humanos envolve o conhecimento de que uma figura de apego está disponível e oferece respostas, proporcionando um sentimento de segurança que é fortificador da relação, e o relacionamento da criança com os pais é instaurado por um conjunto de sinais inatos do bebê, que demandam proximidade.

Com o passar do tempo, um verdadeiro vínculo afetivo se desenvolve, garantido pelas capacidades cognitivas e emocionais da criança, assim como pela consistência dos procedimentos de cuidado, pela sensibilidade e responsividade dos cuidadores. Por isso, um dos pressupostos básicos da TA é de que as primeiras relações de apego, estabelecidas na infância, afetam o estilo de apego do indivíduo ao longo de sua vida.

A importância da teoria do apego para a psicologia do desenvolvimento se deve ao fato de esta oferecer elementos conceituais básicos que permitem pensar os vínculos afetivos do sujeito humano ao longo do ciclo de vida.

Com isso, temos o “attachment parenting” (criação com apego), uma filosofia baseada nos princípios da teoria do apego em psicologia do desenvolvimento. De acordo com a teoria do apego, uma forte ligação emocional com os pais durante a infância, também conhecida como apego seguro, é um precursor de relacionamentos seguros e empáticos na idade adulta.  A criação com apego fala sobre criar relações fortes e saudáveis entre pais e filhos. Isso nos desafia, como pais a tratar nossos filhos com gentileza, respeito, dignidade e a modelar nossas interações com eles como gostaríamos de interagir com os outros. Sendo um retorno aos instintos, são práticas para suprir a necessidade da criança em confiança, empatia e afeto, que vão fornecer à criança um fundamento para uma vida de relações saudáveis.

Podemos então dizer que a criação com apedo molda o cérebro para que ele possa atuar com toda sua potencialidade, sem amarras, sem más resoluções, sem entraves.

Fonte: Google Imagens

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De acordo com a Attachment Parenting International (API) há 8 princípios que propiciam o apego saudável (seguro) entre pais / tutores e a criança. Eles se apresentam como práticas para “ser pais” que podem levar a um “vínculo firme”, a uma “receptividade coerente e sensível” e uma “disponibilidade física e emocional”, que para a pesquisa são fatores-chave em um vínculo seguro.

São eles:

A Criação com Apego procura entender as necessidades biológicas e psicológicas das crianças e evitar expectativas não realistas sobre o comportamento da criança. Ao estabelecer limites que sejam apropriados para a idade da criança, a Criação com Apego leva em conta todas as etapas e psicológicas do desenvolvimento que a criança está experimentando. Desta forma, os pais podem tentar evitar a frustração que ocorre quando eles esperam coisas que as crianças não podem fazer ainda.

E como já falamos anteriormente, estudos apontam que bebês nascem com necessidades fortes de proximidade física com seu cuidador durante os primeiros anos de vida. Essas necessidades são resumidas em: proximidade, proteção e previsibilidade. Os bebês choram, reclamam, sugam -são suas formas de ter a mãe por perto. Ao crescer se sentindo segura em sua relação com a mãe, o bebê se sente confiante para explorar e desenvolver relações fortes e saudáveis com outras pessoas importantes em suas vidas. Cada família é única, com necessidades e recursos próprios.

Contudo a criação com apego não pressupõe a existência de regras, refere-se portanto, à criação com vínculo não é um manual, um guia, nem pretende ser. Mas, o equilíbrio de todos os membros da família é o mais importante.

Fontes de pesquisa:

BEE, H. (1996). A Criança em Desenvolvimento. Porto Alegre: Artes Médicas.

Attachment Parenting International

Teoria do apego: elementos para uma concepção sistêmica da vinculação humana

Teoria do apego: bases conceituais e desenvolvimento dos modelos internos de funcionamento

Responsividade Materna e Teoria do Apego: Uma Discussão Crítica do Papel de Estudos Transculturais

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