Como pensam as crianças?

Postado em 31 jan, 2014 - Dicas Gestantes, Dicas Mamães, Psicologia

“… a criança é uma participante ativa no desenvolvimento do seu conhecimento, construindo seu próprio entendimento.” (Bee, 1996)

Fonte: Google Imagens

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Nas últimas três décadas, os cientistas descobriram que mesmo as crianças mais jovens sabem mais do que nós jamais teria pensado possível. Além disso, estudos sugerem que as crianças aprendem sobre o mundo em muito da mesma maneira que fazem os cientistas, através da realização de experiências, análise de estatísticas, e formando teorias intuitivas dos reinos físicos, biológicos e psicológicos. Desde 2000, os pesquisadores começaram a entender as subjacentes computacionais, mecanismos evolutivos e neurológicos que sustentam essas habilidades notáveis iniciais. Estas descobertas revolucionárias não apenas mudar as nossas ideias sobre os bebês, eles dão-nos uma nova perspectiva sobre a própria natureza humana.

Seguindo o modelo teórico proposto pela Epistemologia Genética, cuja base está apoiada nos princípios propostos por Piaget, a linguagem possui relação direta, em seu desenvolvimento, com a construção do conhecimento, da cognição.

No início de vida, os bebês apresentam apenas ações reflexas. O constante exercício de tais ações, bem como sua coordenação e organização levam à construção de esquemas motores que, por sua vez, permitem a construção de esquemas mentais e, portanto, a condição de representação. Nesse processo, a imitação desempenha papel fundamental, uma vez que revela a existência de condutas inteligentes, como o aprendizado da coordenação entre meios e fins. A imitação sensório-motora, que permite à criança imitar na presença do modelo, evolui para uma imitação que requer a representação mental, denominada imitação diferida. A partir desse momento, a criança torna-se capaz de diferenciar significantes de significados e começa a utilizar símbolos e signos, expressando-os por meio de gestos, sinais e/ou palavras.

Na primeira infância os principais vínculos, bem como os cuidados e estímulos necessários ao crescimento e desenvolvimento, são fornecidos pela família. A qualidade do cuidado, nos aspectos físico e afetivo-social, decorre de condições estáveis de vida, tanto socioeconômicas quanto psicossociais.

Etapas do desenvolvimento cognitivo

0 a 1 mês
1.      Adaptações inatas, exercício dos reflexos
2.      Habitua-se a estimulações repetidas.
3.      Comportamento esquemático e significativo
4.      O bebê pode discriminar sua mãe baseado no cheiro, visão ou som quase imediatamente
5.      Reage positivamente aos confortos e agrados e negativamente aos desconfortos e recusas
6.      Exprime as suas exigências e seus desejos através do choro e da linguagem de sinais
7.      Sente e reage de forma diferente a cada um dos quatro sabores: azedo, doce, amargo e salgado
1 a 4 meses
1.      Primeiras adaptações adquiridas, esquemas simples – Reações circular primária (são esquemas simples, descobertos fortuitamente pelo bebê e circunscrito a seu próprio corpo, experimentando certo prazer funcional em sua repetição)
2.      Exploração sistemática do olhar, o balbuciar, o agarrar e profusão da língua
3.      A criança agarra objetos e os leva à boca
4.      Coordenação mão-boca, diferenciação através do ato de sugar e de pegar
5.      Mudanças nas perspectivas dos objetos são vistas como mudanças no objeto
6.      Não diferenciação de movimentos próprios e de outros objetos externos
4 a 8 meses
1.      Coordenação visomotora
2.      Coordenação de esquemas simples – Reação circular secundária (são coordenações de esquemas simples cuja consequências são inicialmente casuais, os efeitos associados à conduta ocorrem não mais no próprio corpo, senão no meio físico ou social; procedimentos para prolongar espetáculos interessantes)
3.      Correspondência entre conduta e efeito externo (ainda não considerada ação intencional)
4.      Os novos esquemas são mais ricos e variados e possibilitam uma atividade mais liberada
5.      A imitação de um modelo é deliberada e sistemática, contudo a criança imita apenas a conduta visível em seu próprio corpo e presente em seu repertório prévio.
8 a 12 meses
1.      Coordenação de esquemas secundários, início da intencionalidade
2.      Aplicação de meios conhecidos para solução de novos problemas
3.      Permanência de objeto; busca do objeto desaparecido
4.      Constância na percepção da forma e do tamanho dos objetos
5.      Pesquisa noção de profundidade
6.      Capacidade de prever a ocorrência de eventos externos, antecipação
7.      Capacidade de combinar, dissociar e recombinar vários esquemas
8.      Desenvolve a noção de um e dois
9.      Imita movimentos físicos
10.   Reage aos jogos corporais
11.   Propositadamente comanda a atenção do adulto
12 a 18 meses
1.      Experimentação ativa de novas coordenações – Reação circular terciária (resultam da coordenação flexível de esquemas secundários, experimentando novos meios que levam a um efeito desejado; servem para “ver o que acontece”; são as estruturas mais complexas e móveis do estágio sensório-motor, e envolvem a compreensão das relações de causalidade e conduta plenamente intencional)
2.      Pega o brinquedo um por um
3.      Imitação voluntária
4.      Distinção psicológica entre ele e o outro
5.      Oferece objetos à imagem no espelho
6.      Sensível à sugestões visuais e auditivas que tenham um significado social
7.      Há uma compreensão vaga de figuras apresentadas em um livro
8.      Estabelece contatos pessoais cada vez mais definidos
9.      Leva em consideração os deslocamentos sequenciais ao procurar os objetos desaparecidos
10.   Noção de relações entre objetos no espaço e entre objetos e o eu
11.   Noção de si como um objeto entre outros objetos e de si como objeto de ação
18 a 24 meses
1.      Capacidade de representar os objetos da cognição por meio de símbolos
2.      Capacidade de produzir e compreender uma coisa
3.      É capaz de diferenciar mentalmente o símbolo e o referente
4.      Possui a capacidade de gerar palavras para representar um objeto ausente
5.      Utiliza brinquedos de faz-de-conta
6.      Causalidade representativa; as causas e os efeitos são inferidos
Fonte: Google Imagens

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2 a 6 anos

1.      Faz-de-conta está confinado em grande parte a esta faixa etária.
2.      Características intelectuais predominantes deste período:
a.      Centralização: segundo Piaget, é pensar sobre um aspecto de uma situação enquanto ignora os outros.
b.      Irreversibilidade: Fracasso em entender que uma operação ou ação pode ocorrer em dois sentidos.
c.      Transdução: na terminologia de Piaget, é o método de uma criança pensar sobre duas ou mais experiências sem depender da lógica abstrata.
d.      Egocentrismo: conforme usado por Piaget, a incapacidade de uma criança para considerar o ponto de vista de outra pessoa.
2 anos
1.      As crianças se dão conta de que uma figura, uma palavra, um gesto, um brinquedo ou outra “coisa” pode significar um objeto ou evento real.
2.      Tem dificuldade para detectar a correspondência espacial entre modelos e o que eles
3 anos
1.      É um especialista em faz-de-conta, já pode dispensar inteiramente os objetos reais usando simplesmente o gesto
2.      As crianças já entendem que os objetos e eventos mostrados na televisão não são reais, mas tendem a codifica-lo como reais.
3.      Já entendem que desejos podem causar comportamentos.
4.      Não entendem que uma pessoa age a partir do que ela acredita ser verdade, e não daquilo que elas mesmas sabem que é realmente verdade.
5.      Não entendem que o acesso de uma pessoa à informação determina seu conhecimento

 

4 anos

1.      Elas já compreendem que as pessoas têm representações de papeis.
2.      Já podem ser capazes de compreender crenças falsas. Elas sabem porque uma crença pode ser falsa e sabem que são as crenças de uma pessoa que guiam seu comportamento e não a realidade.
3.      As crianças se encontram mais próximas da conservação por si mesmas.
5 anos
1.      Começa a englobar sistemas intrincados de papeis recíprocos, improvisações engenhosas de materiais, temas cada vez mais coerentes e enredos elaborados.
2.      As crianças podem diferenciar os estados emocionais internos de desejos e crenças causados por um evento externo.
6 anos
1.      Já desistiram quase totalmente do faz-de-conta em favor de outras formas de brinquedo (jogos, esportes, hobbies…), embora jogos de fantasia e representação de papeis ainda permanecem.

Fontes de pesquisa:

BEE, H A (1996) Criança em Desenvolvimento. Porto Alegre: Artes Médicas.

Bühler KEB, Custódio Flabiano FC, Limongi SCO, Befi-Lopes DM (2008) Protocolo para Observação do Desenvolvimento Cognitivo e de Linguagem Expressiva (PODCLE). Rev Soc Bras Fonoaudiol.;13(1):60-8.

FLAVELL. JH. (1999) Desenvolvimento cognitivo. Porto Alegre: Artes Medicas

GESELL, AA. (1996) Criança dos 0 aos 5 anos. São Paulo: Martins Fontes.

GESEL, AA (1998) Criança dos 5 aos 10 anos. São Paulo: Martins Fontes.

PAPALIA DE, Olds SW, Feldman RD. (2009) O Mundo da Criança: da infância à adolescência. Rio de Janeiro: Makron Books.

http://www.sciencedaily.com

http://www.scientificamerican.com