Aspectos Neuropsicológicos da Motivação x Sono

Postado em 4 fev, 2013 - Dicas Gestantes, Dicas Mamães, Psicologia

O texto de hoje é bastante teórico, mas irá ajudar a entender melhor os próximos post que estou preparando sobre o sono do bebê e da criança e das necessidades de descanso dos pais!!

Motivos Internos

Um motivo é um processo interno que energiza e direciona o comportamento.

As necessidades são condições internas do indivíduo que são essenciais e necessárias á manutenção da sua vida e à promoção de seu crescimento e bem-estar.

As cognições referem-se aos eventos mentais, tais como as crenças, as expectativas e o autoconceito.
    
    As emoções são fenômenos subjetivos, fisiológicos, funcionais e expressivos, que orquestram a maneira como reagimos adaptativamente aos eventos importantes de nossas vidas. Ou seja, as emoções organizam e orquestram quatro aspectos inter-relacionados da experiência:

Sentimentos: descrições subjetivas e verbais da experiência emocional.

Prontidão fisiológica: como nosso corpo fisicamente se mobiliza para atender às demandas situacionais.

Função: o que especificamente queremos realizar neste momento.

Expressão: como comunicamos nossa experiência emocional a outros.

Acredita-se que o estado motivacional de um organismo seja controlado de um modo importante  por processos reguladores homeostáticos básicos essenciais para a sobrevivência, como:

  •  Alimentação
  • Respiração
  • Sede
  • Sexo
  • Regulação da temperatura
  • Autoproteção

A motivação varia como uma função da privação: a) Privação de comida – fome; b)Privação de água – sede; c)Privação sexual

As alterações desses estados de motivação são, portanto, produzidas por alterações da condição interna em relação a um determinado ponto de ajuste dos processos de regulação.

Como a fome, sede e sexo implicam várias das questões mais básicas que cercam os estados de motivação interno estão relacionados à sobrevivência.

As atividades que acentuam a sobrevivência imediata (comer e beber), ou as que asseguram a sobrevivência a longo prazo (comportamento sexual ou cuidado da prole) são prazerosos e há um grande desejo natural de repetir esses comportamentos.

Os estados motivacionais, portanto, servem a três funções:

  •  Direção: orientam o comportamento para um objetivo específico;
  •  Ativadora: aumentam o estado de alerta geral e energiza o indivíduo para uma ação;
  • Organizadora: combinando componentes comportamentais individuais e uma sequencia comportamental coerente, orientada para um objetivo.

Os estados de motivação específicos representam desejos ou tendências à ação baseados nas necessidades corporais.

Os estados de motivação são estados internos inferidos que são postulados para explicar a intensidade e a direção de uma variedade de comportamentos como a regulação da temperatura, a alimentação, sede e o sexo.

Os estados motivacionais de um organismo são, portanto, controlados de modo importante pelos processos reguladores homeostáticos básicos essenciais para a sobrevivência

O hipotálamo, por suas funções integrativas, parece ser uma estrutura ideal do centro de controle da motivação, assim como estruturas como o neocórtex e o sistema límbico.

Processos homeostáticos: podem ser compreendidos pela analogia com os sistemas de controle que regulam as maquinas.

Os sistemas de controle mantem uma variável controlada dentro de uma certa amplitude.

Uma das maneiras de regular a variável é compará-la com um valor desejado ou ponto fixo. O sinal de erro então compele elementos de controle que ajustam a variável controlada na direção desejada.

O sinal de erro não é apenas controlado por estímulos de feedback interno mas também é afetado por estímulos externos

Hipotálamo:

O hipotálamo é essencial para a sobrevivência do indivíduo e da espécie, já que é a estrutura que integra os comportamentos com as funções viscerais.

Funções do hipotálamo:

Manutenção da homeostáse: ajuste da temperatura corporal, taxa metabólica, pressão sanguínea, ingestão e excreção de água e digestão.

Comportamentos de comer, reprodutivos e defensivos.

Expressão emocional de prazer, raiva, medo e aversão.

Regulação dos ritmos circadianos (sono-vigília)

Regulação endocrinilógica do crescimento, do metabolismo e dos órgãos reprodutivos.

A principal função à manutenção da homeostase: Mantém o ponto de ajuste da pressão arterial, temperatura corporal, balanço hídrico e eletrolítico e peso corporal

Essas funções são executadas pela regulação hipotalâmica das secreções  da glândula pituitária (hormônios) e por conexões neurais eferentes com o córtex, sistema límbico, tronco encefálico e medula espinhal.

Fonte Google Imagens

Sono
O sono normal varia ao longo do desenvolvimento humano quanto à duração, distribuição de estágios e ritmo circadiano. As variações na quantidade de sono são maiores durante a infância, decrescendo de 16 horas por dia, em média, nos primeiros dias de vida, para 14 horas ao final do primeiro mês e 12 horas no sexto mês de vida. Depois dessa idade o tempo de sono da criança diminui 30 minutos ao ano até os cinco anos. Na vida adulta decresce a quantidade e varia o ciclo do sono em função da idade e de fatores externos. Com o avanço da idade, ocorrem perdas na duração, manutenção e qualidade do sono.

Os ritmos circadianos já estão estabelecidos desde o período perinatal. O recém-nascido (RN) apresenta seu padrão de sono dentro de ritmo ultradiano (<24horas) e, só após o período neonatal, o sono passa a apresentar ritmo circadiano (equivalente a 24 horas).

Ao nascimento, o RN apresenta períodos de 3-4 horas de sono contínuo, intercalados por mais ou menos uma hora de despertar. Esse ritmo ocorre de forma contínua durante o dia e a noite. No período neonatal, a alternância dos estágios do sono tem duração de 50-60 minutos, o ciclo inicia em sono REM e, quanto mais prematuro for o RN, maior a duração do tempo em sono REM. Durante o primeiro mês de vida, inicia a adaptação do ciclo sonovigília ao ciclo noite-dia. No final do primeiro mês de vida, os períodos de sono noturno passam a ser mais longos. Modificações estruturais importantes na arquitetura do sono iniciam durante o terceiro mês de vida, o sono passa a iniciar na fase NREM, e até o sexto mês de vida, 90% dos lactentes já devem ter efetuado esta troca. Nessa idade, o mais longo período de sono ininterrupto geralmente não ultrapassa 200 minutos.

Aos seis meses, o período mais longo de sono ininterrupto não ultrapassa seis horas. A noite é dividida em dois períodos contínuos de sono, intercalada por um despertar. Durante o dia, inicia a ocorrer a consolidação da vigília, mas ainda interrompida por períodos de sono diurno.

Entre 9-10 meses, o lactente dorme em média 9-10 horas por noite, e 2-3 horas por dia, dividas em duas sestas. Aos 12 meses, deve ocorrer a consolidação do sono noturno, com a permanência de 1-2 sestas diurnas.

Entre 2-3 anos ocorrem longos períodos de sono noturno (±10 horas), e uma ou duas sestas diurnas (no meio da manhã e no início da tarde), que não ultrapassam um total de duas horas.

Aos três anos geralmente só é necessária a sesta da tarde. Nessa idade, é atingido o percentual adulto de sono REM, devendo este constituir no máximo 25% do tempo total em sono.

A partir dos cinco anos, o sono noturno já deve estar consolidado, e não ocorrem mais períodos de sono diurno. Entre cinco e dez anos de idade, ocorre diminuição gradativa do tempo total em sono, aproximando-se ao padrão do adulto (± 8 horas).

Na adolescência, tende a ocorrer uma redução do sono noturno (dormem em média 7 horas), havendo diferença nos dias com atividade escolar e fins-de-semana. O aumento do tempo total em sono nos fins-de-semana reflete uma recuperação da privação de sono ocorrida nos dias letivos.

O sono normal é constituído pela alternância dos estágios REM e NREM. O sono NREM é caracterizado pela presença de ondas sincronizadas no eletroencefalograma e pode ser subdividido em quatro fases: estágio 1, 2, 3 e 4 (3 e 4 equivalem ao sono de ondas lentas ou sono delta). O eletroencefalograma (EEG) de sono REM é caracterizado por ondas dessincronizadas e de baixa amplitude.

A sincronização-dessincronização das ondas do EEG do sono NREM-REM e vigília é conseqüência da atividade neural nos circuitos tálamo-corticais (núcleos reticulares do tálamo e córtex cerebral), decorrentes da interação entre os núcleos monoaminérgicos e colinérgicos do tronco encefálico.

O sistema monoaminérgico reticular ativador ascendente é constituído pelos núcleos dorsais da rafe (NDR serotoninérgico), locus ceruleus (LC noradrenérgico) do tronco cerebral e núcleo tuberomamilar (NTM histaminérgico) do hipotálamo posterior, que se projetam difusamente para o córtex e núcleos reticulares do tálamo.

Três sub-divisões hipotalâmicas são importantes no ciclo sono-vigília: o hipotálamo anterior (núcleos gabaérgicos e núcleos supraquiasmáticos), o hipotálamo posterior (núcleo túbero-mamilar histaminérgico) e o hipotálamo lateral (sistema hipocretinas).

O sistema gabaérgico inibitório do núcleo pré-óptico ventro-lateral (VLPO) do hipotálamo anterior é responsável pelo início e manutenção do sono NREM. Os neurônios supraquiasmáticos do hipotálamo anterior são responsáveis pelo ritmo circadiano do ciclo sono-vigília. Os núcleos aminérgicos, histaminérgicos e núcleos colinérgicos do prosencéfalo basal apresentam-se ativos durante a vigília, inibindo o núcleo pré-óptico ventro-lateral, promovendo a vigília. O processo de inibição-estimulação é a base do modelo da interação recíproca entre os grupos de células wake-off-sleep-on  e células wake-on-sleep-off reguladores do ciclo sono-vigília.

O modelo da interação recíproca também se aplica aos núcleos colinérgicos (células REM-on) e aminérgicos (células REM-off) do tronco cerebral no controle temporal do sono REM-NREM. São identificados no sono dois estados distintos: o sono sincronizado, ou sono NREM, e o sono dessincronizado, ou sono REM (do inglês, rapid eyes movement). O sono NREM é dividido em quatro fases ou estágios, segundo o aumento da sua profundidade. O sono REM caracteriza-se pela dessincronização dos potenciais (baixa amplitude e alta frequência das ondas cerebrais), episódios de movimentos oculares rápidos (daí a sigla em inglês, REM) e atonia muscular.  Além disso, este estágio é denominado também de sono dos sonhos, uma vez que é o período no qual estes ocorrem.

O sono NREM e o sono REM repetem-se a cada 70 a 110 minutos, com 4 a 6 ciclos por noite. A distribuição dos estágios de sono durante a noite pode ser alterada por vários fatores, como: idade, ritmo circadiano, temperatura ambiente, ingestão de drogas ou por determinadas patologias. Mas normalmente o sono NREM concentra-se na primeira parte da noite, enquanto o sono REM predomina na segunda parte.

Várias funções são atribuídas ao sono. A hipótese mais simples é a de que o sono se destina à recuperação pelo organismo de um possível débito energético estabelecido durante a vigília. Além dessa hipótese, outras funções são atribuídas, especialmente ao sono REM, tais como:

  •  manutenção da homeostase, dos neurotransmissores envolvidos no ciclo vigília-sono,
  • consolidação da memória,
  •  termorregulação

Podemos então concluir com base no que foi exposto que o sono é uma função biológica fundamental na consolidação da memória, na visão binocular, na termorregulação, na conservação e restauração da energia, e restauração do metabolismo energético cerebral. Devido a essas importantes funções, as perturbações do sono podem acarretar alterações significativas no funcionamento físico, ocupacional, cognitivo e social do indivíduo, além de comprometer substancialmente a qualidade de vida.

Fontes de pesquisa

- Bear, M. F.; CONNORS, B. W. & Paradiso, M. A. Neurociências: Desvendando o Sistema Nervoso. Porto Alegre: Artmed. 2008.

- Guyton, A. C. Neurociência Básica: Anatomia e Fisiologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008

- Lent, R. Cem Bilhões de Neurônios: Conceitos Fundamentais de Neurociência. São Paulo: Atheneu, 2005

- Lunoy-Ekman, L. Neurociência – Fundamentos para a Reabilitação. Rio de Janeiro, RJ, Ed. Guanabara Koogan, 2008

- Gazzaniga, M. S. – Ciência Psicológica: Mente, Cérebro e Comportamento. Porto Alegre: Artmed. 2005.